Juiz do Chade interroga europeus em caso de rapto de crianças

Um juiz do Chade começou aquestionar no sábado um grupo de 16 europeus que enfrentamacusações de rapto e fraude por tentar levar 103 crianças parafora do país da África Central. Uma pesada escolta militar acompanhou quatro membros datripulação espanhola do avião, ainda trajando seus uniformes, etrês jornalistas franceses para o principal tribunal da capitalN'Djamena para serem interrogados pelo magistrado. "No momento, há uma intensa comparação dos depoimentos",disse o procurador do Chade Philippe Houssine a jornalistas. Uma vez que todos os acusados forem interrogados, umtribunal vai comparar suas declarações, e então o juiz decidiráse há provas suficientes para um julgamento. Esse processolevará vários dias. Nove cidadãos franceses e sete espanhóis foram presos nacidade de Abeche, perto da fronteira leste com Darfur, regiãodo Sudão assolada pela guerra, há pouco mais de uma semana,quando tentavam levar as crianças de avião para a Europa. Aidade das crianças varia de um a dez anos. Seis franceses são membros de um grupo chamado Arca de Zoé,que declarou que pretendia colocar órfãos de Darfur sob oscuidados de famílias européias e que tinha o direito de fazerisso, segundo as leis internacionais. Mas autoridades das Nações Unidas e do Chade dizem que amaioria das crianças veio de famílias em que pelo menos um dospais mora na violenta fronteira do Chade com o Sudão,contradizendo o termo "órfãos de guerra", usado pela Arca deZoé. "Um ato como esse é desumano. Não podemos aceitá-lo.Precisamos julgá-los aqui", disse Firmin Sanda, uma das pessoasna multidão reunida em frente ao tribunal. Eric Breteau, presidente da Arca de Zoé, e pelo menos doischadianos acusados foram levados ao tribunal no sábado. Secondenados no Chade, o principal acusado poderá receber umapena de até 20 anos de trabalhos forçados. "ENGANADO" O caso é um constrangimento para o ex-poder colonial doChade, a França, que apóia o presidente chadiano, Idriss Deby,e tem soldados e aviões estacionados no país. O primeiro-ministro francês, François Fillon, pediu aoministro das Relações Exteriores, Bernard Kouchner, e aoministro da Defesa, Hervé Morin, para que iniciem investigaçõesdo caso. Ele disse que o governo havia advertido desde maio asfamílias francesas envolvidas para que fossem cautelosas.Algumas famílias francesas pagaram até 2.000 euros (cerca de5.000 reais) como "doação" à Arca de Zoé pelo custo do "resgatedos órfãos" de Darfur. O caso gerou um feroz debate moral entre aqueles queacreditam que as crianças estariam melhor na Europa, longe dosconflitos da África, e aqueles ultrajados pelo modo que essascrianças foram tiradas de suas famílias africanas. Algumas crianças disseram a jornalistas no Chade que foramseduzidas de vilas na fronteira do Chade com o Sudão comofertas de doces e escola. Cerca de 100 pessoas, algumas carregando flores,participaram de uma passeata silenciosa em apoio aos europeus,em Marselha, sul da França. Outra passeata deve ocorrer emParis no domingo. Protestos contra a Arca de Zoé ocorreram no Sudão e noChade, alguns expressando críticas diretas à França. A sobrinha de Dominique Aubry, um dos franceses presos noChade, disse a um jornal francês que seu tio foi enganado sobrea natureza da atividade do grupo. "Há os organizadores da operação e há outros que, como meutio, foram enganados", disse Anne-Sophie Lagniel em entrevistaao Le Figaro, no sábado. "Eles os convenceram de que seria uma missão oficial bemorganizada, com Cécilia Sarkozy como patrona. Disseram a eleque era sobre um campo no Chade para tratar de crianças lá.Nada mais. Nunca falaram de adoção." (Reportagem adicional de Stephanie Hancock, Clotaire Achi eAlain Amontchi em N'Djamena, Kerstin Gehmlich em Paris e MarineHass em Bruxelas)

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