Richard Drew/Efe
Richard Drew/Efe

Juiz estabelece fiança para Strauss-Kahn

Ex-chefe do FMI, que ontem foi formalmente indiciado por estupro, pagará US$ 1 milhão para responder a processo em prisão domiciliar

Gustavo Chacra, O Estado de S.Paulo

20 de maio de 2011 | 00h00

CORRESPONDENTE

NOVA YORK

A Justiça de Nova York concedeu o direito a Dominique Strauss-Kahn, ex-diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI) acusado de tentativa de estupro, de pagar uma fiança de US$ 1 milhão para poder responder ao processo em prisão domiciliar. A decisão ocorre no mesmo dia em que o economista foi formalmente indiciado por um ataque sexual contra uma camareira em um hotel em Manhattan.

Além do pagamento do valor da fiança, Strauss-Kahn foi obrigado a deixar um depósito de US$ 5 milhões como seguro, para o caso de uma possível tentativa de fuga. No período, o economista, que renunciou ao cargo de diretor-gerente do FMI no fim da noite de anteontem, será obrigado a usar uma espécie de bracelete eletrônico para monitorar seus movimentos por meio de GPS. Uma firma de segurança privada precisou ser contratada para vigiar o francês 24 horas por dia.

Todo esse custo com a segurança, estimado em US$ 200 mil por mês, precisará ser bancado pelo próprio Strauss-Kahn. Sua mulher, a jornalista francesa Anne Sinclair, deverá ser a responsável pelos pagamentos. Milionária, ela também alugou um apartamento para o casal permanecer em Nova York. Antes do escândalo, os dois viviam em Washington.

Na audiência de ontem, na Suprema Corte de Nova York, a mulher do ex-diretor-gerente do FMI entrou de braços dados com Camille, filha de um casamento anterior de Strauss-Kahn e estudante de Ciência Política da Universidade Columbia, em Manhattan. As duas dizem ter confiança na inocência do economista, de 62 anos, que estava com uma aparência abatida durante a sessão.

De acordo com o jornal britânico The Telegraph, uma fonte próxima à filha mais velha do ex-diretor-gerente, Vanessa, disse em Paris que a família dele está em choque e tem certeza de que o caso é "uma armação".

"Os termos da fiança foram suficientes para garantir que você esteja aqui quando nós precisarmos", disse o juiz Michael Obus, se dirigindo a Strauss-Kahn. A Promotoria de Nova York argumentava que havia o risco de o ex-diretor-gerente tentar fugir para a França, que não extradita seus cidadãos para os Estados Unidos. O caso do diretor de cinema Roman Polanski que foi condenado por pedofilia e escapou para o país europeu, foi citado na argumentação.

No sábado, horas depois do suposto ataque sexual contra a camareira de hotel, Strauss-Kahn chegou a embarcar em um voo para a França, onde acabou preso pelas autoridades americanas, pouco antes da decolagem da aeronave. De acordo com os promotores, o objetivo de Strauss-Kahn seria fugir.

"A ideia de que o homem que fez isso (atacou sexualmente) à vítima volte para a rua é algo que a está atordoando", disse o promotor Jeffrey Shapiro, se referindo à camareira, uma viúva de Guiné que vive com a filha de 15 anos no Bronx.

A defesa argumentou que a viagem havia sido marcada com antecedência e Strauss-Kahn teria uma reunião marcada com a chanceler da Alemanha, Angela Merkel, no domingo.

Os advogados do ex-diretor-gerente do FMI disseram também que ele foi localizado pela polícia americana graças a dois telefonemas que fez ao hotel para que lhe entregassem o celular no aeroporto, para corroborar a tese de que não houve tentativa de fuga.

A argumentação da defesa sugeriu que não houve um"encontro forçado" entre Strauss-Kahn e a camareira.

A próxima audiência a respeito do caso está marcada para o dia 6, mas o julgamento pode demorar seis meses ou mais para ocorrer. Dessa forma, ainda que prove sua inocência, Strauss-Kahn, não poderá disputar as primárias para as eleições presidenciais francesas, marcadas para o segundo semestre deste ano. Caso seja condenado nas sete acusações que responde, o ex-diretor-gerente do FMI poderá pegar 74 anos prisão. Ele nega todas as acusações.

Fiança

MICHAEL OBUS

JUIZ DA SUPREMA CORTE DE NOVA YORK

"Os termos da fiança foram suficientes para garantir que você esteja aqui quando nós precisarmos"

CRONOLOGIA

Sexta-feira, 13 de maio

Strauss-Kahn se hospeda na suíte 2806 do hotel Sofitel

Sábado

Camareira Nafissatou Diallo entra no quarto do francês, onde teria ocorrido a tentativa de estupro

Domingo

Advogado de Strauss-Kahn diz que seu cliente é inocente e não tentou fugir do país

Segunda-feira

Justiça rejeita pedido de fiança

Terça-feira

Defesa diz que entrará com novo pedido de fiança

Quarta-feira

Novas vítimas de Strauss-Kahn denunciam abusos na imprensa

Ontem

Nafissatou Diallo presta depoimento e fiança é estabelecida em US$1 milhão

PONTOS-CHAVE

Tristane Banon

A francesa Tristane Banon, hoje com 31 anos, diz que foi agarrada por Strauss-Kahn em 2007 durante uma entrevista. Ele teria tentado abrir à força o sutiã e a calça da jornalista

"Martina"

Citada pelo "Times" londrino, a vítima - uma jornalista australiana que pediu anonimato - diz que foi perseguida por anos pelo francês. Ele a teria conhecido em uma entrevista coletiva

Piroska Nagy

A ucraniana Piroska Nagy, funcionária do FMI, teve, em 2008, um caso com o francês. Ela afirma que se sentiu coagida a fazer sexo com o chefe. "Ele não pode ter mulheres sob seu comando"

Nafissatou Diallo

Camareira que nasceu em Guiné e vive nos EUA, cuja identidade foi revelada ontem, teria sido atacada pelo chefe do FMI na suíte do Hotel Sofitel de Manhattan, caso que levou o francês à prisão

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.