Juiz impede discurso de assassino norueguês

Autor dos ataques que mataram 77 em julho queria falar às famílias das vítimas, presentes na corte pela primeira vez

ANDREI NETTO , CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S.Paulo

15 de novembro de 2011 | 03h04

O assassino norueguês e militante de extrema direita Anders Behring Breivik enfrentou ontem sua primeira audiência pública na Justiça. Seguindo o mesmo discurso desde que foi preso, em 22 de julho, Breivik apresentou-se como líder de uma organização contra o multiculturalismo na Europa e "cavaleiro templário na Noruega." Seu discurso foi interrompido pelo juiz do caso, que não permitiu o "pronunciamento" de Breivik às famílias das vítimas.

O acusado voltou a confessar a morte de 77 pessoas em um atentado a bomba cometido no centro de Oslo e em uma chacina praticada na Ilha de Utoya, a cerca de 40 minutos da capital.

Na nova audiência no Tribunal de Oslo, situado no mesmo distrito administrativo atacado há quatro meses, Breivik questionou a legitimidade do magistrado do caso, Torkjel Nesheim. "No que diz respeito à competência (do tribunal), eu a recuso porque você tem mandato de organizações que apoiam uma ideologia do ódio e porque ele defende o multiculturalismo", afirmou, em tom de desafio.

Questionado pelo juiz sobre seu envolvimento no atentado, que deixou 9 mortos, e na chacina da ilha, onde morreram 69 pessoas - a maioria adolescentes - ligadas ao Partido Trabalhista, de centro esquerda, Breivik voltou a assumir a responsabilidade pelos crimes, mas não reconheceu a culpa. "Eu reconheço os fatos, mas não me declaro culpado", disse.

Ao participar de sua quarta audiência na Justiça, a primeira aberta às famílias de vítimas - cerca de 120 pessoas compareceram à sessão -, o terrorista vestia terno e gravata, e não o uniforme militar que insiste em solicitar.

Durante sua fala, Breivik pediu ao juiz que o deixasse ler um pronunciamento aos parentes de vítimas. "Vejo que os afetados estão presentes pela primeira vez. Posso dizer algo a eles?", questionou, segundo relatos da rede de TV pública NRK. O texto, sustentou, teria duração de apenas cinco minutos. Sem conhecer o conteúdo da nota que seria lida, o juiz recusou o pedido e ordenou que o assassino confesso se calasse.

Por várias vezes, de acordo com os jornalistas noruegueses presentes à audiência, Breivik tentou usar suas respostas para transformá-las em um discurso político. Nesses momentos, parte das famílias se levantava e deixava a sala do tribunal. Antes que se prolongasse, o assassino era contido pelo juiz do caso.

A decisão de Nesheim de recusar o discurso político na Justiça foi apoiada por protestos públicos realizados do lado de fora do tribunal, onde um grupo de manifestantes empunhava faixas, entre as quais uma em que se lia "Não às tribunas para fascistas".

Ao término da audiência, a Justiça norueguesa renovou a prisão temporária do acusado, válida por mais 12 semanas. Seu primeiro julgamento foi fixado para abril de 2012, na expectativa de que toda a investigação policial seja concluída até fevereiro. Pelas próximas quatro semanas, Breivik seguirá impedido de conceder entrevistas. Por oito semanas, não poderá receber cartas, usar e-mail ou receber visitas. Mas as restrições tendem a ser progressivamente suspensas ao longo dos próximos meses.

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