REUTERS/Kevin Lamarque
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Juiz indicado por Obama presidiu caso de ataque em Oklahoma

Nas discussões sobre escolhas para a Suprema Corte, 'o nome mais repetidamente citado, por republicanos e democratas, foi o de Merrick Garland', disse Obama

David A. Fahrenthold, Tom Hamburger e Rosalind S. Helderman / The Washington Post, O Estado de S. Paulo

16 de março de 2016 | 19h35

Merrick Garland, indicado quarta-feira, 16, pelo presidente Barack Obama para uma vaga na Suprema Corte, é um jurista de longa data que abriu mão de carreira lucrativa numa banca de advocacia para ser promotor federal – posteriormente, liderando o processo em massa dos responsáveis pelo atentado à bomba de 1995 em Oklahoma City. 

Garland, de 63 anos, foi nomeado para o tribunal federal de apelações do Distrito de Colúmbia em 1997, depois de confirmado pelo Senado americano. Desta vez, porém, líderes republicanos do Senado prometeram vetar qualquer indicação de Obama para o Supremo, antes ainda de o nome de Garland ser cogitado. 

Falando nos jardins da Casa Branca, Garland teve de parar em vários pontos do discurso, tomado pela emoção. Disse que seus ancestrais deixaram a Europa Oriental fugindo do antissemitismo e seus pais instilaram nele a vontade de servir ao público. 

“Sei que minha mãe está me vendo na TV e chorando tudo que pode”, disse. “Gostaria de que meu pai ainda estivesse por aqui para ver também .” O pai de Garland tocava uma agência de anúncios no porão da casa da família – “o menor dos menores negócios”, contou ele. O pai morreu em 2000. 

Garland é casado há mais de 25 anos e tem duas filhas. Ele disse que ensinou as meninas a cultivarem a aventura – talvez bem demais. “Gostaria que não tivéssemos ensinado a mais velha a gostar de aventura a ponto de estar escalando montanhas, com o telefone fora de serviço, quando o presidente chamou”, brincou ele. 

Em 2013, Garland tornou-se juiz-chefe do tribunal federal do Distrito de Colúmbia – tido como a mais prestigiosa corte de apelações depois da Suprema Corte. 

Obama já havia pensado nele para o Supremo por duas vezes, em 2009 e 2010, antes de escolher outros: primeiro, Sonia Sotomayor, depois, Elena Kagan. 

Desta vez, Obama escolheu Garland sem concorrentes, aludindo a sua longa folha de serviços no governo e a suas ligações com administrações republicanas. O presidente assinalou que Garland foi escrivão de dois juízes indicados pelo presidente Dwight Eisenhower e promotor federal sob o presidente George H. W. Bush. 

“Ele encarou uma redução de 50% no salário e se instalou num escritoriozinho sem janelas que cheirava a cigarro”, disse Obama. Nessa posição, como procurador federal assistente em Washington, Garland ajudou num dos mais famosos casos políticos da cidade: o processo contra o então prefeito Marion S. Barry, acusado de ligações com drogas, em 1990.  

Nas discussões sobre possíveis escolhas para a Suprema Corte, “o nome mais repetidamente citado, por republicanos e democratas, foi o de Merrick Garland”, disse o presidente.  

Garland cresceu em Lincolnwood, Illinois, subúrbio da margem norte do Lago Michigan, nos arredores de Chicago.  “Ele é brilhante, sempre foi”, disse Earl Steinberg, amigo de Garland desde o jardim da infância e seu padrinho de casamento. “É aquele que todos apostavam que teria sucesso.”  

Steinberg acrescentou que Garland foi presidente do conselho estudantil no secundário da escola pública que cursavam, capitão da equipe de jogos intelectuais e estrela da equipe de debates. Fazia trilhas, lutava e participava de peças teatrais. Era ainda o melhor aluno da classe.  

Steinberg lembrou uma história que o presidente Obama também contou no Rose Garden. Pouco antes de Garland discursar na cerimônia de formatura, outro estudante começou a falar, condenando a Guerra do Vietnã, e o microfone foi desligado. Quando chegou sua vez, Garland acrescentou um improviso ao discurso pronto. “Falou sobre o direito de as pessoas se manifestarem livremente”, disse Steinberg. 

Perturbação política do mesmo conteúdo afetou uma viagem de Garland à Casa Branca quando estava no ginásio, após ganhar um convite presidencial por seu desempenho escolar. Daphne Kenyon, hoje economista, que ganhou o convite com Garland, disse que o grupo deveria se encontrar com o então presidente, Richard Nixon. Mas surgiu então o rumor de que alguns dos convidados planejavam um protesto antiguerra. Nixon cancelou o encontro. O grupo foi recebido por Tricia, filha do presidente. 

Garland chegou a Harvard pretendendo estudar medicina, disse Steinberg, que foi seu companheiro de quarto por quatro anos e hoje é médico. Mas logo viu que as aulas do pré-médico não eram sua praia. 

No segundo ano de Harvard, inscreveu-se num seminário na faculdade de direito. Um dia, recorda-se Steinberg, Garland recebeu um telefonema de um proeminente professor do curso para discutir um ensaio que o aluno havia escrito. 

De início, Garland ficou aterrorizado. Aí o professor falou. “Disse a Garland que não sabia que grau lhe dar, mas deu 10 com louvor ‘para o melhor ensaio que já vi num seminário’”, recorda-se Steinberg.  

Perguntado sobre algum ponto fraco do amigo, cuja filha vai se casar em três semanas, Steinberg vacilou um pouco, mas achou a resposta: “Ele não sabe cozinhar, sabe comer”.  

Garland formou-se em Harvard e tornou-se sócio da banca de advogados Arnold & Porter. Depois, entrou no serviço público como promotor.  

“O mais impressionante em sua carreira foi deixar o escritório de advocacia para ser um promotor iniciante no escritório do procurador federal”, disse Lincoln Kaplan, pesquisador sênior na Faculdade de Direito de Yale que conhece Garland desde os tempos da universidade. 

“É o tipo de decisão que alguém toma em busca de uma experiência específica. Ele queria aprender a ser promotor começando do começo.”  

Garland tornou-se um alto funcionário que ajudou a supervisionar processos em todo o país. Colegas promotores e funcionários do Departamento de Justiça lembram-se de terem se reunido no gabinete dele em abril de 1995 quando começavam os primeiros rumores de uma explosão devastadora no edifício federal Alfred P. Murrah, em Oklahoma City.  

“Vimos corpos de crianças sendo tirados dos escombros”, disse Jamie S. Gorelick, então subprocuradora-geral e chefe de Garland. “Aquilo nos atingiu profundamente em vários níveis, entre eles, o de pais.” “Você precisa me mandar para lá”, Garland disse a ela.  

“Tínhamos de enviar alguém que assegurasse uma investigação perfeita, que mostrasse ser nosso sistema de Justiça o sistema admirável que é, alguém que coordenasse o trabalho de milhares de agentes, muitos promotores federais e todos os colaboradores estaduais e locais. Ele fez isso”, afirmou Jamie, com o que concordaram ex-colegas dela e de Garland. 

“Indiscutivelmente, é uma indicação do mais alto nível”, disse Seth Waxman, que trabalhou com Garland e depois foi advogado-geral sob o presidente Clinton. “Trata-se de alguém que não se deixa levar por paixões ou julgamentos superficiais, na vida pessoal ou na profissional. É uma das pessoas mais cuidadosas e ponderadas que se possa imaginar. Ele pensa desapaixonadamente e tem enorme poder de decisão.” / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ 

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