Juiz interroga Pinochet sobre mortes

Pela primeira vez, o general Augusto Pinochet viu-se nesta terça-feira frente a frente com o juiz Juan Guzmán, que o investiga há três anos e pode processá-lo por graves violações aos direitos humanos durante a ditadura. Para interrogar Pinochet, o juiz chegou às 10h00 (hora local) desta terça-feira à residência do ex-ditador, no elegante bairro de La Dehesa, por uma porta lateral - fixada pelo ex-governante como seu domicílio legal em lugar da entrada principal.Duas horas depois, o magistrado deixou a residência sem fazer declarações.Um forte dispositivo policial impediu que os jornalistas se aproximassem da casa, enquanto meia centena de seguidores de Pinochet agitavam cartazes dizendo: "Nós o apoiaremos até o final". O porta-voz do ex-ditador, o general reformado Guillermo Garín, disse que entre Pinochet e Guzmán se estabeleceu "uma relação harmônica". Ele disse não saber se o general respondeu às perguntas e afirmou que a entrevista durou menos de duas horas.A filha mais velha do general, Jacqueline, disse que no final do interrogatório seu pai estava "bastante cansado: de setembro até hoje ele sofreu uma deterioração muito grande. Tem dificuldade para andar, se cansa, tem um problema na traquéia, então engasga".Versões jornalísticas nem confirmadas nem desmentidas dizem que o veterano general respondeu a cerca de 15 perguntas.Segundo o advogado de acusação Eduardo Contreras, "o que sabemos é que a diligência foi legalmente cumprida, esgotada e encerrada e não haverá novos interrogatórios. Isto dá condição a que os advogados solicitem, seguramente nas próximas horas, a abertura do processo contra Augusto Pinochet".Guzmán acusou Pinochet do assassinato de 57 opositores e o seqüestro de outros 18 em mãos da "caravana da morte", um grupo militar por ele enviado a quatro cidades, supostamente para agilizar o julgamento de detidos após o golpe militar de 1973.No início de dezembro, Guzmán abriu o processo contra Pinochet pelos 75 assassinatos, mas a Corte Suprema anulou o processo porque não havia sido realizado o interrogatório feito nesta terça-feira.O presidente Ricardo Lagos destacou nesta terça-feira o cumprimento da garantia do governo de que Pinochet poderia ser julgado no Chile."Isto demonstra que nós chilenos sabemos fazer bem as coisas. Houve um momento em que o Chile todo disse que iria acontecer aqui o que hoje está acontecendo...um país organizado é um país no qual todos, humildes ou poderosos, respondem perante os tribunais", declarou Lagos.Pinochet, de 85 anos, foi detido durante 503 dias em prisão domiciliar em Londres a pedido do juiz espanhol Baltasar Garzón. O governo chileno pediu sua libertação alegando razões médicas e dizendo que o general poderia ser processado no Chile.A demência e a loucura são os únicos motivos de impedimento de um julgamento previstos pelo Código Penal chileno.O interrogatório desta terça-feira se realizou em meio a uma forte polêmica provocada na véspera, depois que um dos médicos que acompanharam os exames neurológicos e psiquiátricos de Pinochet disse que o resultado dos exames foi alterado.Sete especialistas assinaram um documento no qual afirmam que Pinochet sofre de "demência vascular subcortical moderada", mas o neurologista designado pelos acusadores, Luis Fornazzari, disse que as conclusões foram modificadas e que os termos acertados para o diagnóstico falavam em "demência de leve a moderada".O tipo de demência do ex-ditador afeta a memória a curto prazo, o raciocínio e o juízo, entre outras alterações, mas não significa loucura.A diferença entre uma demência "de leve a moderada" e uma simplesmente "moderada" pode significar a suspensão do julgamento de Pinochet - o que será decidido por Guzmán.Qualquer que seja a decisão do juiz, ela será objeto de apelação pela parte que se sentir prejudicada. Enquanto Pinochet era submetido ao interrogatório, dois advogados ativistas dos direitos humanos apresentaram contra ele a queixa-crime número 210, pelo desaparecimento de dois opositores no sul do país.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.