Juiz negro da Suprema Corte fala contra a Ku Klux Klan

Ódios e paixões do velho Sul racista dos EUA voltaram a causar impacto em Washington ao iniciar-se, na Corte Suprema de Justiça dos EUA, o debate sobre uma lei da Virgínia que proíbe queimar cruzes, como faz a organização racista Ku Klux Klan (KKK). O único juiz negro conservador da máxima instância judicial americana, Clarence Thomas - usualmente silencioso durante os debates - decidiu falar sobre o tema. O caso, envolvendo uma lei cinqüentenária do Estado da Virgínia, levantou questões complexas sobre a doutrina da Primeira Emenda, que garante o direito à livre manifestação de opiniões e pensamentos, e não estava claro como a corte pretendia resolvê-las - até que o juiz Clarence Thomas falou.As cruzes, queimadas diante das casas e das igrejas dos negros, eram um ritual das reuniões do grupo racista Ku Klux Klan no sul. Uma cruz em chamas é de fato altamente simbólica, disse Thomas, mas só simboliza algo que não merece proteção constitucional: o "reino de terror" imposto às comunidades negras pela Ku Klux Klan por quase 100 anos, antes que a Virgínia aprovasse a lei - declarada inconstitucional pela Suprema Corte estadual há um ano.Uma cruz em chamas "não é como nenhum outro símbolo em nossa sociedade", afirmou Thomas. "Não há outra proposta para essa cruz, não há comunicação, nenhuma mensagem em particular", continuou ele. "Ela era destinada a causar medo e aterrorizar a população." Enquanto Thomas falava, por um ou dois minutos, os outros juízes acompanhavam absortos. Em seguida, abandonando suas dúvidas anteriores quanto à constitucionalidade do estatuto, eles pareciam ter se convencido de que poderiam mantê-lo, por ser consistente com a Primeira Emenda.Thomas - que nasceu e cresceu sob o domínio do racismo em Pink Point, na Geórgia - dirigiu seus comentários a Michael R. Dreeben, um vice-procurador-geral federal que argumentava em apoio à defesa da lei pela Virgínia. Mas ele não tinha perguntas para Dreeben, que de todo modo concordou com o juiz em quase todos os aspectos. A ameaça de violência implícita numa cruz em chamas "não é protegida pela Primeira Emenda" e implica, na verdade, em "conduta proibida".Thomas parecia mais preocupado em deixar indiscutivelmente clara a base de sua própria opinião. "Meu temor é o de que você esteja, na verdade, subestimando o simbolismo e o efeito da cruz em chamas", disse ele. "Creio que o que você está tentando fazer é encaixar isto em nossa jurisprudência, no lugar de expor com mais clareza o que se pretendia conseguir com a cruz." Foi um momento emocionante. Thomas fala num rico tom de barítono, ainda mais notável por ser raramente ouvido nas sessões de argumentação da corte. Sua intervenção, portanto, foi tão inesperada quanto a paixão com que ele expressou sua visão.

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