EFE
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Juíza espanhola emite ordem de captura europeia contra líder catalão

Documento direcionado às autoridades da Bélgica tem como alvo o governador deposto da Catalunha, Carles Puigdemont, e quatro de seus ministros, todos investigados por rebelião e sedição por seu papel na declaração de independência

Andrei Netto, Enviado Especial / Barcelona, O Estado de S.Paulo

03 Novembro 2017 | 17h56
Atualizado 03 Novembro 2017 | 19h30

BARCELONA - A Justiça da Espanha decretou nesta sexta-feira, 3, a prisão do governador deposto da Catalunha, Carles Puigdemont, pelos crimes de rebelião e de desvio de verbas públicas. O líder independentista, que seguia “ refugiado” em Bruxelas, será alvo de um pedido internacional de detenção emitido pela Europol. 

Uma crise capaz de confundir os estrangeiros

Horas antes do mandado ser emitido, o separatista havia declarado sua intenção de ser candidato nas eleições de 21 de dezembro - mesmo que vivendo no exterior.

A ordem de prisão também é válida para quatro ex-secretários do governo catalão deposto: são eles Antoni Comín, da Saúde, Clara Ponsatí, da Educação, Meritxell Serret, da Agricultura, e Lluís Puig, da Cultura. 

Na quinta, oito líderes do gabinete dissolvido, incluindo ex,-secretários de Estado e o ex-vice-governador, Oriol Junqueras, foram presos. Em seu despacho nesta sexta, a juíza Carmen Lamela argumentou que o grupo organizou o plebiscito sobre a independência da Catalunha, sem a autorização de Madri e contrariando a Constituição.

“Para promovê-lo utilizaram a força intimidatória e violenta dos setores independentistas da população, chamando à insurreição e desafiando o ordenamento constituição”, argumentou a magistrada. Puigdemont foi descrito como “conhecedor da falta de competência da comunidade autônoma da Catalunha para convocar um plebiscito”.

Até o começo da noite desta sexta-feira, ainda não havia informações sobre se Puigdemont já havia sido detido nem se ele se entregaria às autoridades.

Horas antes, o ex-governador havia concedido uma entrevista à TV belga RTBF na qual deu a entender que não tinha a intenção de retornar à Espanha, mas que seria candidato à sua própria sucessão no final do ano. “Posso fazer campanha de qualquer parte do mundo, porque estamos em um mundo globalizado”, afirmou, disparando contra o judiciário de seu país. “A Justiça espanhola não garante nada. Nós nos consideramos um governo legítimo.”

Na ofensiva judicial contra os líderes do movimento secessionista, outras duas personalidades sofreram as consequências do rigor dos magistrados: Jordi Sànchez, líder da Assembleia Nacional Catalã, e Jordi Cuixart, do Òmnium Cultural, duas organizações que financiam a campanha pela independência da região. Ambos estão presos há duas semanas, mas tiveram os pedidos de habeas corpus negado pela Justiça, por considerar que havia risco de reincidência. O argumento de que o cenário político mudou e que a reiteração no delito seria impossível não foi aceito.

A prisão dos dois “Jordis” já foi objeto de protestos nas ruas de Barcelona, e a nova onda de detenções dos principais líderes secessionistas despertou os militantes do movimento independentista, que desde a quinta-feira à noite voltaram às ruas em concentrações, passeatas e panelaços na capital e no interior da Catalunha. “Decidiram pôr na prisão um governo eleito democraticamente. A Justiça espanhola tem o nível de uma Síria ou de uma ditadura. Não há separação de poderes. Gente do partido que está no governo é acusada de corrupção, mas nada acontece”, criticou Sebastián Alcina, de 54 anos, manifestante que pediu “liberdade” na praça Sant Jaume, em frente à sede do Executivo catalão, agora sob intervenção de Madri. “Não sei o que vai acontecer com Puigdemont, mas creio que tenha uma carta na manga. É uma pessoa muito inteligente.”

 

A direção intersindical das organizações de trabalhadores de Barcelona convocou duas novas jornadas de greve geral para protestar contra as prisões e também para tentar impedir as detenções de membros do Parlamento, como a presidente Carme Forcadell,  ameaçada de detenção. Os independentistas denunciam que as prisões são uma estratégia do primeiro-ministro da Espanha, Mariano Rajoy, para que um partido unionista - pró-Madri - vença as eleições em 21 de dezembro.

Em resposta à acusação, o Ministério do Interior, que organiza o pleito, informou que aceitará candidaturas de líderes políticos independentistas, mesmo presos. O censo eleitoral divulgado nesta sexta indicou que mais de cinco milhões de catalães estão aptos a votar. Além disso, 136,3 mil jovens e adultos votarão pela primeira vez por terem se inscrito em listas eleitorais.

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