UK Supreme Court/AFP
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Juíza que ganhou as redes com seu broche de aranha quebrou barreiras na Justiça britânica

Discurso da presidente da Suprema Corte britânica, Brenda Hale, que considerou a ilegalidade da suspensão do Parlamento britânico foi um dos assuntos mais comentados do Twitter

Redação, O Estado de S.Paulo

24 de setembro de 2019 | 17h00

LONDRES  - A Baronesa Brenda Hale, de 74 anos, presidente da Suprema Corte do Reino Unido, concentrou todas as atenções nesta terça-feira, 24, ao discursar sobre o veredicto da mais alta corte do país sobre a ilegalidade da suspensão do Parlamento britânico pelo premiê Boris JohnsonSeu discurso, criticando a decisão de Johnson e “a afronta à Constituição britânica”, se tornaram um dos assuntos mais comentados do Twitter. 

Sua blusa preta com um enorme broche de diamantes em forma de aranha na altura do ombro direito fez tanto sucesso que as pessoas começaram a criar camisetas com a imagem da aranha para arrecadar dinheiro para uma instituição de caridade sem-teto. 

Lady Hale não é apenas uma camiseta bonita com um broche cintilante. Ela tem um histórico de defesa dos direitos civis e do progressismo.

Sua nomeação em 2017 como presidente da Suprema Corte foi uma decisão marcante: ela foi a primeira mulher a ocupar o cargo, assim como a primeira mulher nomeada para o mais alto tribunal do Reino Unido.

Há décadas, ela é conhecida por romper barreiras no judiciário, que luta para rejeitar a percepção de que é um clube de senhores brancos, héteros e educados em escolas particulares.

Nascida em Yorkshire, Inglaterra, filha de dois professores universitários, Lady Hale frequentou o Girton College na Universidade de Cambridge onde, como estudante de direito, se formou como primeira da sua classe em 1966, “uma das seis mulheres em um ano de bem mais de cem homens”, segundo a Vogue britânica.

Ela disse à revista sobre sua época em Cambridge: "Eu cantava, era membro da Sociedade Gilbert & Sullivan, o que era muito divertido. Atuei um pouco ... Sim, eu tive uma vida social ativa". 

Decisões abriram caminho para mudanças marcantes

Em 1966, logo depois de se formar, ela ingressou na faculdade de Direito da Universidade de Manchester como professora. Na década de 80, foi nomeada para a Comissão de Direito, um órgão independente que examina as leis na Inglaterra e no País de Gales, e tornou-se conselheira da rainha, membro de um grupo seleto de advogados de primeira instância.

Na comissão, ela participou da revisão de leis relacionadas a crianças, violência doméstica e saúde mental. Entre suas decisões que abriram o caminho para mudanças marcantes, havia uma decisão de que a violência doméstica não se limitava ao contato físico.

Seu trabalho ajudou a criar importantes peças legislativas, incluindo a Lei da Criança de 1989, a Lei de Direito da Família de 1996 e a Lei da Capacidade Mental de 2005.

Em 2004, Brenda Hale tornou-se a Baronesa Hale, a primeira advogada  do Reino Unido nomeada ao título. Na sua nomeação, ela escolheu um brasão com o lema em latim "Omnia Feminae Aequissimae": "As mulheres são iguais a tudo".

Em 2009, foi nomeada juíza da Suprema Corte, e assumiu a presidência em 2017, com um salário de 225 mil libras. Em 2013, ela foi eleita a número 4 em uma lista das mulheres mais poderosas do Reino Unido pela BBC. Em um artigo de setembro na Vogue britânica, ela foi chamada de "uma heroína para os nossos tempos".

Conhecida como defensora da diversidade, ela disse este ano durante um discurso em comemoração ao centenário da entrada de mulheres na profissão de advogado que deveria haver mais mulheres no judiciário britânico. Apenas 29% dos juízes do país são mulheres, segundo o Ministério da Justiça.

"Devemos ser pelo menos metade dos juízes", disse Lady Hale. Ela negou, no entanto, ser uma uma "ativista judicial".

Sua posição ajudou vincular Brexit à autorização do Parlamento 

Entre os casos anteriores mais destacados de Lady Hale, estava a decisão de o governo ter o poder de invocar o Artigo 50 do Tratado de Lisboa da União Europeia, o início formal do processo Brexit.

Ela tomou partido da maioria ao decidir que a saída do Reino Unido da União Europeia deveria ser autorizada pelo Parlamento.

Ela também apoiou o uso pela polícia de abordagens aleatórias para busca e apreensão para combater o crime e a violência de gangues, dizendo que a tática trouxe "grandes benefícios ao público" e que havia salvaguardas suficientes em torno de seu uso, mesmo que alguns britânicos tenham denunciado o ato como discriminatório.

Lady Hale respondeu aos críticos: "Para ser franca, são principalmente jovens negros que serão salvos se houver menos violência de gangues em Londres e em algumas outras cidades. É a aleatoriedade e, portanto, a imprevisibilidade da busca que tem o efeito de dissuadir e também aumenta as chances de que as armas sejam detectadas".


 

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