Justin Tallis / AFP
Justin Tallis / AFP

Julgamento de extradição de Assange para os Estados Unidos é retomado em Londres

Fundador do WikiLeaks é acusado de espionagem por norte-americanos

Redação, O Estado de S.Paulo

07 de setembro de 2020 | 04h10

LONDRES - Um tribunal de Londres retoma nesta segunda-feira, 7, o julgamento para decidir se o fundador do WikiLeaks, Julian Assange, deve ser extraditado para os Estados Unidos, que querem que ele seja julgado por espionagem em um caso que seus defensores denunciam como chave para a liberdade de imprensa.

Após uma primeira semana de audiências em fevereiro, Assange, 49, deveria retornar ao tribunal em abril, mas o processo foi atrasado pela pandemia de coronavírus que, segundo seus advogados, os impediu de ter acesso a ele na prisão para se preparar o caso.

As audiências devem durar três ou quatro semanas e ser marcadas por protestos: seguidores do especialista australiano em informática já convocaram uma manifestação fora do tribunal na segunda-feira sob o slogan "Não extradite Assange, jornalismo não é crime". Antes de decidir sobre o pedido de extradição, os tribunais ingleses devem garantir que não seja desproporcional ou incompatível com os direitos humanos.

Detido em uma prisão de alta segurança em Londres desde sua prisão em abril de 2019 na embaixada do Equador, onde viveu por sete anos como refugiado em um pequeno quarto, Assange pode pegar 175 anos de prisão se for considerado culpado pela justiça dos EUA. Washington o reprova por colocar informantes e ativos estratégicos em risco com a publicação em 2010 de documentos secretos comprometidos sobre as ações militares dos EUA no Iraque e no Afeganistão, que revelaram atos de tortura, mortes de civis e outros abusos.

Mas, para seu comitê de apoio, são "acusações de motivação política" que "representam um ataque sem precedentes à liberdade de imprensa e ao direito do público de saber", denunciaram em um comunicado. “Permitir a extradição de Julian Assange nesta base teria um efeito negativo sobre a liberdade de imprensa e, em última instância, poderia prejudicar o trabalho da imprensa como provedora de informação e guardiã pública nas sociedades democráticas”, alertou por sua vez. Concelho Europeu.

Mas os Estados Unidos defendem que Assange não é um jornalista, mas um "hacker" e afirma que ajudou a analista de inteligência Chelsea Manning a roubar esses documentos secretos antes de expor o material aos olhos do mundo. Também o acusa de ter conspirado com membros dos grupos de hackers LulzSec e Anonymous e de ter "acesso não autorizado a um sistema de computador do governo de um país da OTAN".

Os advogados de Assange alertam há meses sobre o frágil estado físico e mental do australiano, que em participações anteriores parecia confuso e com dificuldade de expressão ou simplesmente ausente por problemas de saúde.

Nas audiências de fevereiro, eles asseguraram que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, prometeu perdoá-lo se negasse que e-mails publicados pelo WikiLeaks e que contribuíram para a derrota de sua rival democrata Hillary Clinton nas eleições presidenciais de 2016 vazaram para ele pela Rússia. A Casa Branca negou essa acusação.

Segundo a defesa do australiano, Trump quer fazer com ele uma punição "exemplar" em sua "guerra contra jornalistas investigativos" e Assange não teria um julgamento justo nos Estados Unidos. "A perseguição política é evidente", disse o ex-juiz espanhol Baltasar Garzón, que coordena internacionalmente sua equipe de advogados, durante as audiências de fevereiro.

Os defensores de Assange também denunciam a vigilância "ilegal" em nome dos Estados Unidos por uma empresa de segurança espanhola da qual seu cliente foi vítima quando vivia como refugiado na embaixada do Equador em Londres. A justiça espanhola abriu uma investigação a este respeito.

Qualquer que seja o resultado deste julgamento de Londres de alto perfil, a parte derrotada quase certamente apelará. Assim, o australiano, privado de liberdade por mais de oito anos, poderia permanecer preso por muitos mais meses na capital britânica. /AFP

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