Martin Meissner/Reuters
Martin Meissner/Reuters

Julgamento do 'Carniceiro dos Bálcãs' entra na fase final 

O Tribunal Penal Internacional para a antiga Iugoslávia acusa Mladic, de 74 anos, de ter feito a 'limpeza étnica' de uma parte da Bósnia, com a intenção de criar um Estado sérvio etnicamente puro

O Estado de S. Paulo

05 Dezembro 2016 | 22h02

O julgamento do ex-chefe militar dos sérvios da Bósnia, Ratko Mladic, conhecido como o "Carniceiro dos Bálcãs", entrou nesta segunda-feira, 5, na etapa final com o início da argumentação da promotoria. Essa etapa durará três dias.

O Tribunal Penal Internacional para a antiga Iugoslávia (ICTY) acusa Mladic, de 74 anos, de ter feito a "limpeza étnica" de uma parte da Bósnia, com a intenção de criar um Estado sérvio etnicamente puro.

O acusado responde a 11 acusações de genocídio, crimes contra a humanidade e supostos crimes de guerra cometidos durante a guerra da Bósnia (1992-1995), que deixou mais de 100 mil mortos e 2,2 milhões de refugiados.

O promotor assegurou que Mladic "se atribuiu o crédito" de um plano estratégico que "alterou radicalmente o quadro demográfico das zonas da Bósnia reivindicadas pelos sérvios bósnios".

"O que ocorreu de município em município não foi um efeito acidental da campanha militar, senão seu objetivo", declarou o promotor Alan Tieger ante o tribunal de Haia.

Mladic vestia terno cinza e gravata com estampas em branco e azul. Com ar sombrio, olhou durante algum tempo para os jornalistas e o público presente na sala, e depois desviou o olhar para ler alguns documentos.

Acusado em julho de 1995, foi detido na casa de um parente na Sérvia em 26 de maio de 2011, após ter escapado da justiça internacional durante 16 anos. O julgamento começou em 2012.

O ex-chefe militar deverá prestar contas sobre o cerco de Sarajevo, que durou 44 meses e matou 10 mil civis, vítimas da artilharia sérvia ou de franco-atiradores.

No comando. Mladic também deverá responder pelo assassinato de quase 8 mil homens e meninos muçulmanos perpetrado em julho de 1995 em Srebrenica, o pior massacre na Europa desde a 2ª Guerra.

Seus advogados apresentarão suas alegações na sexta-feira, após terem bombardeado os juízes com mais de 950 moções durante o julgamento para pedir, entre outras coisas, a anulação do processo ou a recusa de um magistrado.

Nesta segunda-feira, os advogados de defesa voltaram a apresentar uma demanda para adiar a sentença do tribunal, mas a corte rejeitou essa moção, como fez com a maioria das anteriores.

Segundo seus advogados, Mladic e seus homens só estavam se defendendo dos ataques das forças bósnias muçulmanas, e o ex-chefe militar é vítima de um julgamento "político".

Mas Tieger acusa os advogados de tentarem "transformar Mladic em um pequeno oficial incompetente, menos importante que os comandantes principais".

O vídeo de uma conversa entre militares sérvios difundido pela acusação mostra que Mladic "estava no comando", segundo o promotor, que afirmou que o réu trata agora de "fugir à responsabilidade do que anteriormente se gabou".

Os parentes das vítimas aguardam com preocupação o fim deste julgamento, cuja sentença será divulgada durante o ano que vem.

Munira Subasic, presidente da associação das mães de Srebrenica, espera que Mladic seja condenado à prisão perpétua. Seu alter ego político, Radovan Karadzic, foi condenado recentemente a 40 anos de prisão.

O julgamento contra Mladic é o último do tribunal para a antiga Iugoslávia, criado pela ONU durante a guerra em 1993 para levar à Justiça os autores das atrocidades cometidas durante os conflitos que dilaceraram a antiga Iugoslávia. / AFP 

Mais conteúdo sobre:
Ratko Mladic

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.