Julgamento do ´caso Anfal´ é retomado sem Saddam

O julgamento pelo genocídio de 180 mil curdos pelas forças iraquianas nos anos 1980 - que tinha o ex-ditador iraquiano Saddam Hussein como seu principal réu - foi retomado nesta segunda-feira com a cadeira do falecido presidente vazia, nove dias depois de ele ter sido enforcado. A primeira ordem do tribunal foi retirar todas as acusações contra Saddam.O juiz Mohammed Al Ureybi iniciou os trabalhos cancelando formalmente as ações de genocídio e crimes contra a humanidade que pesavam contra o ex-ditador. Ele cortou o microfone quando um dos outros seis réus no caso se levantou e começou a ler o Corão em homenagem ao ex-chefe. "Em virtude da confirmação da morte do réu Saddam Hussein, a corte decidiu suspender definitivamente os procedimentos legais contra ele, segundo a Lei Iraquiana de Procedimentos Penais", disse Ureybi. Seis colaboradores de Saddam, que também são réus no caso, ainda enfrentam acusações de crimes de guerra e crimes contra a humanidade pelos papéis que tiveram numa campanha militar que levava o nome de Operação Anfal, durante a guerra entre o Irã e o Iraque, nos anos de 1980 a 1988. Entre os acusados, todos ex-membros da equipe de Saddam durante seu regime ditatorial, está o primo do ex-ditador, Ali Hassam al-Majid.Com aspecto cansado, a barba branca por fazer, Majid se recusou a ocupar seu assento e insistiu em ler versículos do Corão junto à cadeira vazia de Saddam. "Façam-no sentar, façam-no sentar", ordenava o juiz aos guardas.Muitos curdos lamentam que o principal suspeito não possa mais ser punido pela chamada Operação Anfal, mas esperam que os outros réus sejam levados à forca.Majid teria sido o principal executor da Anfal, campanha cuja a maioria dos mortos foram vítimas de gases químicos."Saddam está morto, mas o ´herói´ da operação Anfal ainda está vivo", disse Abdul Ghani Yahya, um sexagenário que vive em Arbil, cidade curda no norte do Iraque.No reinício do processo, os promotores apresentaram documentos que supostamente vinculam Majid e outros réus à Anfal.Enforcamento polêmicoSaddam foi enforcado em 30 de dezembro condenado pela morte de 150 xiitas no caso que ficou conhecido como Dujail - o nome da cidade em que os assassinatos ocorreram. A execução, entretanto, levou o governo dominado pelos xiitas a receber críticas do mundo todo. Um vídeo ilegal gravado dentro da câmara de execução mostrou o ex-ditador sendo insultado pouca horas antes de ser enforcado. Nesta segunda-feira, a polêmica sobre o enforcamento continuou despertando reações. Expressando-se tardiamente sobre o caso, o primeiro-ministro da Grã Bretanha, Tony Blair, criticou a maneira como o ex-ditador foi executado. Segundo Blair, a execução foi "completamente errada".Também nesta segunda-feira, a organização Human Rights Watch afirmou que a rápida execução revela o pouco caso do governo iraquiano em relação aos direitos humanos, e instou os funcionários iraquianos a suspender as duas execuções que ainda devem acontecer. O meio-irmão de Saddam e ex-chefe da inteligência iraquiana, Barzan Ibrahim, e o ex-chefe da Corte Revolucionária do Iraque, Awad Hamed al-Bandar, foram condenados à morte depois de terem sido considerados culpados, ao lado de Saddam, pelo envolvimento na morte de quase 150 xiitas em Dujail, após uma tentativa de assassinato de Saddam, que teve lugar nesta cidade em 1982.No entanto, as execuções de ambos foram adiadas até depois do feriado de Eid al-Adha, que terminou há seis dias. Elas devem ocorrer nos próximos dias, embora Jaafar al-Mousawi, promotor chefe no caso de Dujail, tenha afirmado que o calendário seria "determinado pelo governo".Sami al-Askari, assessor do primeiro-ministro Nouri al-Maliki, se absteve de justificar o adiamento e disse apenas que "ainda não foi fixada nenhuma data" para os enforcamentos de al-Bandar e Ibrahim. Todos os sete réus no caso Anfal, incluindo Saddam, declararam inocência em relação às acusações de crimes de guerra e crimes contra a humanidade. Saddam e outro acusado também se declararam inocentes em relação à acusação de genocídio.A rapidez com que a decisão do enforcamento de Saddam foi tomada foi interpretada por muitos como o reflexo do suposto receio dos EUA de que o tribunal estudasse o fato de os americanos terem treinado e disponibilizado armas ao regime do ex-ditador, entre os anos de 1980 a 1988. No entanto, com a retomada do julgamento dos outros seis acusados, esta questão continuará em aberto.

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