Julgamentos agravam tensão entre Ocidente e Irã

Teerã divulga depoimentos de universitária e funcionários francês e britânico

Andrei Netto, O Estadao de S.Paulo

11 de agosto de 2009 | 00h00

O julgamento de mais de cem acusados de participar ou orquestrar os distúrbios pós-eleição no Irã, em curso no Tribunal Revolucionário de Teerã, agravou ontem o confronto diplomático entre o Ocidente e o governo do presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad. No fim de semana, imagens de depoimentos dos funcionários das embaixadas da França e da Grã-Bretanha e de uma universitária francesa acusada de espionagem chocaram a Europa e provocaram a reação dos EUA. A segunda sessão com os suspeitos de liderar os protestos contra o resultado das eleições presidenciais de 12 de junho, e de mergulhar o país em sua mais grave crise política desde a Revolução Islâmica de 1979, foi realizada entre sábado e domingo. Entre os réus, os destaques das tevês foram a universitária francesa Clotilde Reiss, de 24 anos, e os funcionários da embaixada da França, Nazak Afshar, e da Grã-Bretanha, Hossein Rassan. Clotilde foi acusada de espionagem por ter "reunido informações" e "encorajado manifestantes" durante as semanas de protestos. Segundo a Justiça iraniana, a jovem admitiu ter redigido "um relatório" - na realidade, um e-mail - de uma página, que teria sido encaminhado ao Instituto Francês de Pesquisas no Irã (Ifri), um centro ligado à embaixada. Afshar afirmou ter oferecido a manifestantes abrigo na representação francesa em Teerã, enquanto Rassan declarou que seus superiores hierárquicos na embaixada britânica ordenaram a participação de todos nos protestos. Os testemunhos foram usados pelo governo iraniano para acusar o Ocidente de orquestrar os protestos, que deixaram 26 mortos. "Nós interferimos em assuntos de Estado de outros países? Por que (outros países) devem interferir nos nossos?", questionou à agência Reuters o porta-voz da chancelaria do Irã, Hassan Qashqavi. "O Irã resistirá a esta interferência." Teerã também levantou dúvidas sobre três americanos presos após entrar ilegalmente no país pela fronteira com o Iraque. "Que missão eles tinham no Irã? Por que não pediram vistos?", indagou Mohammad Karamirad, membro do Comitê de Assuntos Exteriores e de Segurança Nacional. Eles podem responder por espionagem.A audiência do tribunal e as declarações do governo só aumentaram a tensão com a oposição interna e com o Ocidente. Os depoimentos foram denunciados por líderes da oposição iraniana como sendo parte de "um processo-espetáculo" contra réus cujos direitos foram "violados". Oposicionistas como Mir Hossein Mousavi, derrotado por Ahmadinejad na eleição, e o ex-presidente reformista Mohammad Khatami também correm o risco ser levados a julgamento.Em Paris, o chanceler Bernard Kouchner qualificou as acusações como "sem fundamento" e exigiu a imediata libertação de Clotilde e Nazak. De Cap Nègre, no sul da França, onde passa férias, o presidente Nicolas Sarkozy também exigiu a libertação dos acusados. A Grã-Bretanha classificou o processo de "escandaloso". Susan Rice, embaixadora dos EUA na ONU, também condenou o tribunal iraniano.

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