Junta egípcia quer 'blindar' a nova Constituição

Após salafistas obterem bons resultados eleitorais, general anuncia criação de comitê para supervisionar redação e conter influência de extremistas religiosos

CAIRO, O Estado de S.Paulo

08 de dezembro de 2011 | 03h05

A junta militar egípcia anunciou ontem que pretende criar um comitê para supervisionar a redação da nova Constituição do país, sob o argumento de que é necessário blindá-la da influência de extremistas religiosos. Esse órgão, segundo um dos membros da junta, o general Mukhtar Mulla, reunirá dirigentes de partidos políticos, pré-candidatos à presidência e intelectuais.

"O Parlamento não representa todos os setores da sociedade", disse o general. "A Constituição precisa representar todo o Egito e não só uma maioria parlamentar."

Na primeira etapa das eleições parlamentares, encerrada ontem, o Partido Justiça e Liberdade, braço político do grupo islâmico Irmandade Muçulmana, deve conquistar 73 das 154 cadeiras em disputa (mais informações nesta página). Mas o que mais preocupa os militares é a expressiva votação, de 24%, obtida pelos salafistas do Partido Al-Nur , que defendem a adoção da sharia (lei islâmica) no Egito.

"Estamos nos estágios iniciais da democracia", acrescentou Mulla. "Não é que desconfiemos do Parlamento, as eleições são livres e justas, mas ele não representa toda a sociedade."

Ainda não está claro como funcionará o comitê. A princípio, o Parlamento de 508 deputados que deve ser eleito até janeiro deveria participar da escolha dos 100 constituintes responsáveis pela redação da nova Carta. Nas últimas semanas, a sugestão de que os militares poderiam nomear 80 desses deputados irritou religiosos e seculares.

Ainda de acordo com Mulla, o conselho vai coordenar com o Parlamento e o gabinete do primeiro-ministro civil Kamal Ganzouri e garantir que a Constituição represente todas as religiões, profissões e partidos políticos. "Acho que não haverá oposições a esse conselho. Os padrões serão consensuais e agradarão a todos", prometeu.

A Irmandade Muçulmana criticou a junta por tentar impor um controle não democrático sobre a nova Carta do Egito. "Rejeitamos qualquer tentativa de se sobrepor à vontade do povo", disse o advogado Sobhi Saleh, um membro do grupo. "Só aceitaremos esse comitê se suas recomendações não tiverem força de lei." / AP

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