Junta egípcia usará lei de emergência

Artigos da medida de exceção suspensos após queda de Mubarak serão restaurados; Egito e Israel renovam intenção de manter laços

, O Estado de S.Paulo

11 Setembro 2011 | 00h00

CAIRO

As Forças Armadas egípcias, que comandam o país desde a queda de Hosni Mubarak, em fevereiro, reinstauraram ontem a lei de emergência usada pelo ex-ditador desde 1981 para evitar novos confrontos, como a recente invasão da Embaixada de Israel no Cairo. Após o anúncio, o primeiro-ministro Esam Sharaf, que lidera o grupo de crise do governo, ofereceu sua demissão - rejeitada pelos militares.

Os militares egípcios, pressionados pela população para entregar o poder a líderes civis o mais rápido possível, tentam agora lidar com a pressão pública para adotar uma política externa mais incisiva contra Israel.

A suspensão de vários artigos da lei de emergência foi uma das principais demandas dos manifestantes opositores que derrubaram Mubarak. Após o anúncio da retomada da legislação repressora, o ministro da Informação, Osama Heikal, reafirmou que o Egito mantém o seu compromisso com as convenções internacionais, incluindo a proteção das representações diplomáticas em seu território.

Autoridades egípcias tentaram aumentar a segurança da embaixada israelense antes do ataque de sexta-feira. No início do mês, um muro foi construído ao redor da missão diplomática. A barreira foi facilmente destruída, provocando a saída do embaixador israelense do país por falta de segurança.

Ontem, o primeiro-ministro de Israel, Binyamin Netanyahu, deixou claro que honrará o pacto de paz de mais de três décadas firmado com o Egito e reafirmou que seu embaixador voltará ao Cairo assim que possível. O governo israelense preocupa-se com as relações com o Egito desde que Mubarak - um de seus mais importantes aliados - foi derrubado.

O rompimento das relações diplomáticas de Israel com a Turquia também alarma o governo. O premiê turco, Recep Tayyip Erdogan, deve visitar Cairo nos próximos dias para tentar firmar uma aliança anti-israelense com o novo governo egípcio.

Nas últimas semanas, o Exército egípcio começou a negociar com Israel o aumento do número de soldados na Península do Sinai, até então restrito segundo os termos do acordo de paz de Camp David, de 1979.

A intenção do Cairo seria atacar militantes inspirados na Al-Qaeda que aproveitam o vácuo de segurança da região para usá-lo como base para operações, como os recentes ataques contra gasodutos que levam gás egípcio para Israel. / REUTERS e EFE

TRÊS RAZÕES PARA...

Israel se preocupar

1. Relações com o Egito. O fim do regime de Hosni Mubarak no Egito, em fevereiro, deu protagonismo a grupos radicais islâmicos e anti-Israel - antes duramente reprimidos pelo Estado de caráter laico. Entre as organizações que participaram ativamente dos protestos da chamada primavera árabe, está a Irmandade Muçulmana, responsável por ataques a alvos ocidentais e, segundo alguns historiadores, modelo de movimento jihadista seguido por Osama bin Laden para a fundação da Al-Qaeda. Diante da demora na formação do Estado egípcio pós-Mubarak, teme-se que a influência radical religiosa e pan-arabista na sociedade do país se amplie, pondo em risco as relações entre Egito e Israel, resultado de duras negociações que culminaram nos acordos de Camp David, de 1979. Desde então, ao lado da Jordânia, o Egito é um dos poucos interlocutores israelenses no mundo árabe.

2. Laços com a Turquia. Grande nação de maioria muçulmana não árabe, a Turquia mantém relações diplomáticas e comerciais com Israel desde 1949. Esses laços, porém, começaram a se deteriorar no ano passado, quando um comando militar israelense invadiu em águas internacionais um navio turco que integrava uma flotilha destinada a levar ajuda humanitária à Faixa de Gaza - mantida sob bloqueio naval por Israel para evitar a chegada de armas para o grupo radical islâmico Hamas, que controla o território. Há duas semanas, uma investigação internacional concluiu que a ação israelense foi desproporcional, apesar de ter considerado o bloqueio legal. Exigindo desculpas formais, a Turquia retirou seu embaixador em Israel e o nível das relações foi reduzido ao mínimo. Na semana passada, em resposta à declaração turca de que escoltará militarmente navios com destino à Faixa de Gaza, o chanceler israelense, Avigdor Lieberman, ameaçou armar a guerrilha curda PKK, que luta pela proclamação de um Estado em parte do território turco.

3. Estado palestino. Líderes palestinos prometem levar à Assembleia-Geral da ONU, que começa na semana que vem, a declaração unilateral de constituição de seu Estado. Há dúvidas sobre o status que reivindicarão para esse Estado e Washington já antecipou que assumirá o ônus político de vetar a proposta, caso os palestinos a levem ao Conselho de Segurança da ONU pedindo filiação plena ao organismo. Israel considera que a iniciativa palestina minará toda a possibilidade de futuras conversações - sob a alegação que um Estado semelhante só poderá advir após a assinatura de um acordo de paz, que defina com clareza questões como o destino dos assentamentos judaicos, o status de Jerusalém e o tema dos palestinos que deixaram suas propriedades em Israel após 1948.

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