Junta militar de Mianmá adverte contra protestos de monges

Governo vinha mostrando contenção na reação às marchas, que chegam ao 8º dia e ganham tom político

Agências internacionais,

24 Setembro 2007 | 14h05

A junta militar que governa Mianmá ameaçou nesta segunda-feira, 24, "tomar providências" contra os monges budistas que lideram uma onda de manifestações de rua no país asiático. Pelo oitavo dia consecutivo, milhares de pessoas saíram às ruas de Rangum para protestar contra o governo autoritário.   Veja Também Inflação e truculência do governo causam protestos de monges   Brasileiro relator da ONU pede ajuda internacional para Mianmá   Líderes mundiais criticam regime militar de Mianmá   A reação do governo, que até então não tinha se manifestado sobre os protestos, veio por meio do ministro de Assuntos Religiosos de Mianmá, general Thura Myint Maung. Ele se dirigiu às lideranças budistas do país, advertindo que se os monges não forem contidos, o Estado irá agir contra eles.   Maung alertou os religiosos a não quebrarem as "regras e regulações" budistas.   O general fez a advertência na tevê estatal durante um encontro de religiosos em Rangum, a maior cidade do país. Ele acusou os monges que participam dos protestos de estarem sendo instigados por inimigos internos e externos do regime, mas não especificou que ação poderia ser tomada contra eles.   Os monges budistas são amplamente reverenciados em Mianmá, e qualquer retaliação violenta às demonstrações pode causar reações imprevisíveis entre a população.   As declarações de Maung vêm após uma passeata que reuniu cerca de 100 mil pessoas na manhã desta segunda-feira em Rangum. Essa já é a maior de uma série de ações de rua lideradas pelos monges nos últimos dias. Os protestos são os mais significativos em quase 20 anos. Em 1988, a repressão a uma onda semelhante de manifestações pró-democracia resultou na morte de quase 3 mil pessoas.   Até agora, o governo militar mostrou contenção na resposta aos protestos. Segundo a BBC, no entanto, a repressão só não veio por pressão da China, que pediu à junta militar que evite um derramamento de sangue e instabilidade no país rico em recursos naturais.   Mas conforme as manifestações ganham corpo, aumenta a expectativa de uma nova intervenção violenta. Além da marcha em Rangum, ao menos outras 25 cidades birmanesas viram protestos semelhantes nesta segunda-feira.   Milhares nas ruas   O protesto em Rangum durou mais de cinco horas e terminou pacificamente. O último grupo, estimado em cerca de mil monges e 400 simpatizantes, dispersou-se perto de um bloqueio policial próximo da casa de Aung San Suu Kyi, líder do movimento democrático local e prêmio Nobel da Paz. Calcula-se que os manifestantes, reunidos em passeata, tenham percorrido um total de 20 quilômetros.   Organizadores afirmaram que centenas de milhares de pessoas teriam aderido ao protesto, mas uma agência humanitária internacional que monitorou a manifestação calculou que havia entre 50 mil e 100 mil pessoas presentes.   O protesto ocorreu depois de uma semana seguida de manifestações promovidas por monges budistas. Embora a presença dos religiosos, que entoam cânticos e orações durante a marcha, tenha impedido discursos inflamados, as manifestações tornaram-se explicitamente políticas depois que cidadãos comuns aderiram aos protestos.   Manifestação política   Conforme aumenta o número de civis, reverberam com maior intensidade as palavras de ordem do movimento pró-democracia: reconciliação nacional, libertação dos prisioneiros políticos e ênfase em campanhas de alimentação, agasalho e habitação.   O protesto dos monges começou a ganhar tom político no sábado, quando cerca de 500 pessoas receberam permissão para passar diante da casa onde a líder do movimento democrático Aung San Suu Kyi é mantida em regime de prisão domiciliar. Ela acenou para os manifestantes em sua primeira aparição pública em mais de quatro anos.   Os protestos começaram em 19 de agosto, motivados pelas altas dos preços dos combustíveis decretadas pelo governo, que dispararam os preços de bens da cesta básica. As tensões agravaram-se no início de setembro, quando um grupo de monges foi agredido por soldados da tropa de choque durante uma manifestação pacífica.

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