Jurados hesitam em condenar Estado, apesar de provas

Resistência é ainda maior quando a vítima da violência da polícia é negra, afirma especialista

FERGUSON, EUA, O Estado de S.Paulo

24 de agosto de 2014 | 02h04

Na madrugada do dia 1.º de janeiro de 2009, dias antes de Barack Obama assumir a presidência dos EUA, o negro Oscar Grant e um grupo de amigos foram abordados pela polícia na plataforma de uma estação de trem em Oakland, na Califórnia. Os policiais respondiam a um chamado sobre uma briga na composição que vinha de San Francisco.

Grant, que tinha 22 anos, foi forçado a deitar de bruços e teve suas mãos algemadas. Mesmo assim, recebeu um tiro nas costas do policial Johannes Mehserle, que disse ter atirado por engano.

Segundo ele, sua intenção era usar o taser, arma que dispara choques elétricos, tem o mesmo formato de um revólver e é usada para imobilizar suspeitos.

Mehserle é um dos poucos policiais julgados pela morte de um suspeito no exercício de sua função. No dia 8 de julho de 2010, ele foi condenado a 2 anos de prisão por homicídio culposo (não-intencional) e foi absolvido da acusação de homicídio doloso.

No dia seguinte ao anúncio da sentença, o Departamento de Justiça anunciou uma investigação federal sobre eventual violação de direitos civis por Mehserle, mas nenhuma conclusão foi divulgada até hoje.

Relutância. Philip Stinton, professor da Universidade Estadual Bowling Green, do Estado de Ohio, afirma que é raro um policial ser julgado pela morte de um suspeito. "Os jurados são muito relutantes em condenar policiais por fazerem o seu trabalho, mesmo quando é óbvio para os demais, especialmente para os que têm treinamento legal, que um crime foi cometido."

A resistência é ainda maior quando a vítima é negra, acredita Delores Jones-Brown, diretora do John Jay College Center on Race, Crime and Justice, de Nova York.

Segundo ela, o fato de a maioria dos jurados ser branca e a existência de uma narrativa que associa negros à criminalidade reduzem a probabilidade de condenação.

Na avaliação de Stinton, a divulgação pela polícia de um vídeo que mostra Michael Brown aparentemente roubando um pacote de cigarrilhas minutos antes de ser morto a tiros por um policial branco foi uma tentativa de desacreditar e reduzir a possibilidade de início de um processo criminal no caso de Ferguson. / C.T.

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