REUTERS/Carlos Garcia Rawlins
REUTERS/Carlos Garcia Rawlins

Juramento de Guaidó como presidente interino surpreendeu oposição, diz Capriles

Candidato à presidência da Venezuela por duas vezes, ele afirma que ficou surpreso com 'efeito dominó' de apoio internacional à autoproclamação de líder da oposição

Redação, O Estado de S.Paulo

01 Fevereiro 2019 | 10h07

CARACAS - O líder parlamentar Juan Guaidó fez um juramento como presidente interino da Venezuela, apesar de a maioria dos partidos opositores rejeitar ou duvidar da conveniência desta opção, revelou na quinta-feira 31 o duas vezes candidato à presidência Henrique Capriles.

Os adversários do presidente socialista Nicolás Maduro foram surpreendidos pelo enorme apoio internacional a Guaidó, encabeçado pelos Estados Unidos, e que o ex-candidato define como um "efeito dominó".

Capriles, de 46 anos, que se referiu ao ato de Guaidó como um juramento e não como uma autoproclamação, falou com a jornalistas pela primeira vez desde o fato que mudou o panorama político da Venezuela. A seguir, trechos de suas declarações.

Como a oposição preparou este momento?

Em 5 de janeiro, quando Guaidó toma posse na Assembleia (Parlamento), a posição majoritária dentro da oposição venezuelana era que Guaidó não devia fazer o juramento como presidente. Considerava-se que isto poderia desencadear um confronto político (...) Havia a dúvida dentro da oposição de que este ato público traria a consequência (que) o governo fechasse a Assembleia Nacional. Chega o 23 de janeiro e Juan [Guaidó] faz o juramento como presidente interino. Não tínhamos a informação. Surpreendeu muitos dirigentes.

Quem é Juan Guaidó?

É uma pessoa bastante racional, não é um extremista, não é um louco, não é violento; uma pessoa centrada.

A oposição esperava tanto apoio internacional?

[Alguns dizem] que este é um plano que orquestramos: isso não é verdade, porque a conta da oposição eram (só) Brasil, Estados Unidos e Colômbia, em termos de reconhecimento a Guaidó, e o secretário-geral da OEA, Luis Almagro. Todos ficamos surpresos com o efeito dominó que houve.

 

Sem este apoio internacional, hoje Guaidó estaria preso?

Provavelmente sim porque o governo diria, 'tenho controle da força, dos poderes, tenho o povo com medo, já baixei o pau no povo em 2017 [em manifestações que deixaram 125 mortos], sigo em frente'. A reação internacional (...) tem sido uma contenção".

Maduro denuncia um golpe de Estado opositor conduzido pelos Estados Unidos: como o senhor responde?

Se vitimiza. Quer fazer crer que Maduro foi um presidente eleito em uma votação e que Guaidó não foi eleito por ninguém, que ele se autoelegeu: isso é falso. Guaidó é um deputado, presidente da Assembleia Nacional e [cumpriu] a nossa Constituição, ante a usurpação de Maduro. [Nas eleições presidenciais de maio de 2018,] Maduro inabilita os principais candidatos, ilegaliza os principais partidos e assim quis disputar as eleições. Olha, que fácil! Então, quem elegeu Maduro? Ninguém, foi uma farsa, foi uma montagem. Diante disso, o que o Poder Legislativo faz? Assumir suas competências constitucionais.

Juan Guaidó tornará possível a unidade opositora?

Qual é o objetivo máximo da oposição? Uma mudança política no país. Onde houve debate? Em como conseguimos essa mudança política, como é possível que a Venezuela possa recuperar a sua democracia porque isto não é uma democracia (...) Isto parece que é um autoritarismo caminhando para um totalitarismo. O passo que Guaidó deu, (...) sem tê-lo previsto, trouxe um processo de composição imediata interno da oposição, (...) mais uma esperança para o venezuelano, mais uma sensação que vocês colhem na rua: 'agora sim, isto caminha para um desenlace'".

Como pode aumentar a pressão sobre o governo?

O que falta para que isto termine de rachar (...): é preciso explicar ao povo que até que a sociedade internamente não comece a dizer 'reconheço a Assembleia' (não haverá desenlace). Ninguém deu este passo internamente, Fedecámaras, Igreja, sindicatos, ninguém disse: não reconhecemos Maduro. Dizem: reconhecemos a Assembleia. Até que não seja dado este passo, Maduro acredita que tem o controle interno". / AFP

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