Justiça aperta o cerco sobre Chirac

Interessada em obter esclarecimentos precisos do chefe de Estado francês sobre o pagamento, em dinheiro, de suas viagens privadas ao exterior entre dezembro de 1992 e março de 1995, um total de 2,4 milhões de francos (US$ 340 mil), a Justiça começa a apertar o cerco sobre o presidente Jacques Chirac. Ele foi surpreendido nesta terça-feira, durante visita oficial à Rússia, pela divulgação de um relatório do procurador de Paris, Jean-Pierre Dintilhac, no qual este estima que nada impede que o presidente possa ser ouvido como "testemunha assistida" num processo judicial. Dessa forma, o procurador concorda com o pedido formulado pelos juízes de instrução que investigam eventuais irregularidades (o pagamento de comissões ocultas) nas concorrências públicas para a reforma dos liceus da região da Ile de France, quando o atual presidente era apenas prefeito da capital. Os magistrados consideram esse depoimento do presidente "necessário para a manifestação da verdade". Em razão da importância da soma citadas os juízes se indagam sobre a origem desse dinheiro e sua relação com os fatos que estão sendo investigados. Os assessores de Chirac contestam esse total, mas admitem que o chefe de Estado pode ter acumulado essa quantia graças a "fundos secretos" distribuídos quando do exercício de funções de ministro e de primeiro-ministro. O relatório provocou uma grande polêmica, envolvendo alguns dos principais constitucionalistas do país. Para o procurador, os juízes de instrução têm competência para ouvir Chirac como "testemunha assistida", o que difere de uma simples testemunha. Ele poderá ser acompanhado de um advogado, não está obrigado a fazer juramento e não poderá ser indiciado. Chirac não poderá ser julgado, pois só a Alta Corte de Justiça convocada especialmente para esse fim, poderia julgá-lo, e assim mesmo por crimes específicos e por suspeitas de certos benefícios pecuniários. De qualquer forma, este será um peso que ele vai carregar durante toda a campanha presidencial, que está apenas começando.

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