REUTERS/Jonathan Ernst
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Justiça argentina fecha cerco ao kirchnerismo com prisões e interrogatórios

Maior empreiteiro da era Kirchner foi transferido para a mesma penitenciária onde já está um ex-ministro

Rodrigo Cavalheiro , CORRESPONDENTE / BUENOS AIRES

07 Abril 2016 | 05h00

A transferência, realizada ontem, do maior empreiteiro da era Kirchner para a mesma penitenciária onde já está um ex-ministro, na região metropolitana de Buenos Aires, foi o sinal mais claro de uma pressão inédita da Justiça sobre figuras centrais do governos de Néstor (2003-2007) e Cristina (2007-2015).

 

O empresário da construção Lázaro Báez, que chegou a ganhar 80% das concessões de obras na Província de Santa Cruz, berço político dos Kirchners, chegou à prisão depois de negar, em sua primeira declaração, as acusações de lavagem de dinheiro e sonegação. Indiciado há uma semana e com um depoimento marcado para a manhã de hoje, ele foi detido na terça-feira, pois o juiz Sebastián Casanello avaliou que poderia fugir. 

A penitenciária de Ezeiza já abrigava Ricardo Jaime, titular da pasta de Transportes entre 2003 e 2009, acusado de superfaturar trens, hoje sucateados, comprados por ¤ 100 milhões de Espanha e Portugal. 

Uma questão recorrente em programas de rádio e TV - e reproduzida nas ruas - é se eles estão dispostos ou estimulados a delatar superiores - e se isso pode atingir a ex-presidente. Desde que deixou o poder, Cristina se mantém reclusa na Província de Santa Cruz. 

Na quarta-feira, ela foi convocada a depor em Buenos Aires em uma investigação sobre fraude no Banco Central, motivada pela venda em massa de dólar futuro na última etapa de seu governo. Grupos kirchneristas já convocaram marchas para apoiá-la e pichações na cidade prometem “o caos” caso Cristina seja indiciada. 

“Na situação de hoje, isso parece improvável. Mas se Báez declarar o que sabe, no mínimo um indiciamento deve ocorrer. Há um mês, estavam todos muito tranquilos até que o vídeo do filho dele mudou tudo”, avalia o constitucionalista Andrés Gil Domínguez, professor da Universidade de Buenos Aires.

Ele se refere à gravação de Martín Báez contando fardos de dinheiro, feita em 2012 e divulgada no dia 16. As imagens mostram ele e colegas na Rosadita, apelido dado a uma das sedes das empresas de Báez em Buenos Aires. Em sua primeira manifestação, Báez negou ontem à Justiça as acusações. Alegou que contar cédulas não é crime e a forma como isso é feito “não torna o dinheiro mais ou menos sujo”.

Uma delação seria possível mesmo sem a lei que o presidente Mauricio Macri pretende aprovar este ano para casos de corrupção. “Os parlamentares kirchneristas sempre foram contra a aprovação da lei, mas quem fizer isso no contexto atual ficará muito exposto”, afirma Gil. 

Segundo o jurista, o benefício está expresso em casos de narcotráfico e terrorismo, mas por associação pode ser aplicado à lavagem de dinheiro.

Báez deu sinais de afastamento do kirchnerismo ao dizer publicamente à governadora de Santa Cruz, Alicia Kirchner, que ele podia justificar a origem de sua fortuna (US$ 18 milhões declarados em 2013), enquanto ela, não. Isso aumentou a expectativa de que possa comprometer a família. A Justiça convocou, por diferentes motivos, parte da cúpula do governo anterior para dar explicações nos próximos seis dias.

O ex-ministro da Economia Axel Kicillof vai depor na mesma causa de Cristina, que apura fraude no Banco Central.

O caso mais complicado é o do ex-ministro de Planejamento Julio de Vido, que hoje tem as prerrogativas de deputado federal e será ouvido duas vezes. Ele era o chefe de Ricardo Jaime, que em seu primeiro depoimento disse “ter seguido ordens superiores” para justificar a compra dos trens superfaturados. Ambos foram citados na Operação Lava Jato como possíveis beneficiários de suborno.

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