Justiça argentina monitora jornalistas

Seis jornais têm de dar endereço e telefone de repórteres que publicam dados e estudos sobre inflação diferentes do índice oficial

Ariel Palacios, de O Estado de S.Paulo,

24 Setembro 2011 | 03h03

Representantes da oposição argentina acusaram ontem o governo da presidente Cristina Kirchner de querer monitorar jornalistas que escrevem sobre a maquiagem dos números da inflação oficial e publicam índices paralelos elaborados por consultorias econômicas e associações de consumidores.

A polêmica começou nesta semana quando o juiz federal Alejandro Catania pediu a seis jornais a lista dos profissionais - com seus respectivos telefones e endereços - que escreveram sobre inflação nos últimos seis anos.

O caso está vinculado ao processo aberto na Justiça pelo secretário de Comércio, Guillermo Moreno, contra a consultoria M&S, denunciada na Justiça por difundir números de inflação diferentes dos emitidos pelo governo. Segundo Moreno, as consultorias especulam para aumentar os preços dos produtos.

Para o ex-ministro da Justiça Ricardo Gil Lavedra, deputado da União Cívica Radical (UCR), a ameaça penal é uma forma encoberta de censura. A deputada Silvana Giúdici, também da UCR, destacou que o pedido relembra as listas da ditadura.

O governo é acusado de maquiar o índice de inflação desde 2007, último ano do governo do ex-presidente Néstor Kirchner, época em que o Instituto Nacional de Estatísticas e Censos (Indec) foi colocado sob administração de Moreno. O secretário manteve a tarefa no governo de Cristina.

"Se continuar assim, só falta que uma dona de casa que comente a alta dos preços ao sair da mercearia seja multada pelo governo", ironizou Giúdici ontem. Segundo a deputada, presidente da Comissão de Liberdade de Expressão na Câmara, a ideia do governo é fazer com que apenas sua voz predomine. "O governo acredita que pode calar todos" declarou.

Críticas. A Associação de Entidades Jornalísticas da Argentina (Adepa) expressou sua grande preocupação e enérgico repúdio pela decisão do juiz. "A individualização compulsiva de jornalistas pelo mero fato de cumprirem sua tarefa constitui uma indubitável pressão sobre os profissionais, que leva a um risco claro de censura indireta e de potencial restrição à livre informação da cidadania", avaliou a entidade.

Desde o início do ano a oposição começou a elaborar um índice próprio no Congresso Nacional. A alta dos preços acumulada nos últimos 12 meses na Argentina, segundo a oposição, seria de 23%. Mas, de acordo com o governo, não passa de 9%. Segundo o governo de Cristina Kirchner, não existe uma escalada inflacionária na Argentina.

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