Justiça argentina nega habeas-corpus a Cavallo

Um homem encontra o ex-ministro Domingo Cavallo e lhe diz: "Mingo, o juiz ordenou tua prisão". Cavallo responde com seu olhar esquizofrênico: "Não me importa. Vou pegar as grades da cela, vou abri-las, rebentá-las, e vou para minha casa". O homem retruca: "Hummm... acho difícil. O Congresso Nacional retirou teus super-poderes".A piada, em referência aos super-poderes que Cavallo teve noano passado, para fazer praticamente o que quisesse em matériaeconômica, publicada hoje pelo jornal "Página 12", teve tonsproféticos, já que todo o antigo prestígio do polêmicoeconomista - que causou várias guinadas na História argentinanos últimos 20 anos - não serviu de nada, já que na manhã destaquinta-feira, o juiz federal Julio Speroni negou o pedido dehabeas-corpus feito pelos advogados do ex-ministro da EconomiaDomingo Cavallo.O "pai da conversibilidade econômica", como é conhecidoCavallo, está em prisão preventiva desde a quarta-feira, acusadode envolvimento no escândalo do contrabando de armas à Croácia e Equador entre 1991 e 1995.A negativa ao pedido, apresentado pelos advogados RafaelO´Gorman e Eduardo Oderigo, implicará em que Cavallo permaneça detido por tempo indeterminado. Daqui a nove dias, o juiz Speroni terá que definir a situação do ex-ministro, que poderia passar de prisão preventiva para a prisão definitiva, até seu julgamento, que poderia ocorrer no ano que vem.No entanto, na semana que vem, o juiz também poderiadeterminar que não existiriam provas suficientes paraprocessá-lo.Se for condenado, Cavallo poderia ficar entre quatro e dozeanos na prisão. Ao contrário do ex-presidente Carlos Menem(1989-99), que no ano passado ficou preso durante cinco mesespelo mesmo escândalo de contrabando, Cavallo não poderiausufruir da prisão domiciliar porque tem menos de 70 anos. O ex-ministro tem 55 anos de idade.Enquanto isso, Cavallo passa seus dias preso no QuartelBuenos Aires da Gendarmería Nacional, um corpo de segurançapolicial, com características militares, que é utilizado para avigilância das fronteiras e repressão de manifestações.Segundo testemunhas, o ex-ministro teria se adaptadorapidamente ao ritmo da prisão. Na noite de sua prisão, jantouum caldo de almôndegas e macarrão. Hoje, como café da manhã,somente tomou chimarrão. Cavallo não teve a chance de degustaras típicas "medialunas" (croissants), calórica tentação que oacompanha há décadas, e que é responsável pelo acréscimo devários furos em seus cintos.Fontes judiciais indicaram à Agência Estado que não sedescarta que a retomada das investigações sobre o contrabando de6.500 toneladas de armas ao Equador e Croácia possa causar umanova detenção do ex-presidente Menem.Esta hipótese poderia tornar-se real se o ex-ministrofornecer novos dados ou pistas de que seu antigo chefe (Cavallofoi ministro de Menem entre 1991 e 1996) teria tidoresponsabilidade no contrabando de armas.No ano passado, Menem foi colocado em prisão domiciliar porser suspeito de ser o líder de uma associação ilícita que teriaorganizado o contrabando. Mas a Corte Suprema, onde havia vários declarados amigos do ex-presidente, determinou que em um governo é impossível a existência de uma associação ilícita, e por isso, Menem foi solto.Analistas consideram que a detenção de Cavallo poderá sertemporária, e que teria motivos políticos para ocorrer. A prisãode Cavallo é conveniente para o governo do presidente EduardoDuhalde, que com ela pode distrair um pouco a atenção públicadas atuais dificuldades que a Argentina atualmente enfrenta paraconseguir um acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI).No ano passado, o próprio juiz Speroni havia considerado emsetembro do ano passado que não havia provas suficientes contraCavallo. Mas na época, Cavallo era o "super-ministro" e aindacontava com o apoio do establishment, que alertava que se fossedetido, poderia ocorrer o caos econômico. O caso acabouocorrendo sem a detenção de Cavallo, que perdeu poderrapidamente, e assim, tornou-se um alvo frágil para a Justiça."Não há novos elementos contra Cavallo. Sua detenção meparece ilógica", disse Juan Torres Bande, advogado de outro dosprocessados no escândalo do contrabando de armas, o coronelEdberto de la Vega.Além disso, outro motivo que estaria levando o juiz Speroni adeter Cavallo é o temor dos juízes argentinos de sofrerem"escraches" (protestos populares realizados na frente daresidência ou lugar de trabalho) por causa da omissão da Justiçadiante dos casos de corrupção.Nos últimos três meses, diversos juízes que antes haviamarquivado graves casos, os ressuscitaram, como forma de"mostrar serviço".

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