Justiça argentina quer saber onde está o dinheiro das armas

O juiz federal Jorge Urso ampliará nos próximos dias as investigações sobre diversos parentes do ex-presidente argentino Carlos Menem, para verificar as possibilidades de que diversos integrantes do clã que governou a Argentina entre 1989 e 1999 tenham enriquecido de forma ilícita. Urso ordenou, na quinta-feira passada, a prisão domiciliar de Menem por considerá-lo o líder de uma organização que realizou contrabando de armas para a Croácia e Equador entre 1991 e 1995.O juiz pretende descobrir qual foi o paradeiro do dinheiro conseguido com a venda ilegal de armas, e se parte do dinheiro dos Menem está relacionado com este contrabando. De um total de US$ 100 milhões conseguidos com a venda de 6.575 toneladas de armas, somente US$ 40 milhões foram recebidos pela estatal "Fabricaciones Militares", empresa que enviou a mercadoria. Os restantes US$ 60 milhões evaporaram, e suspeita-se que parte deles tenha sido para o pagamento de subornos que permitiram a operação.Política externaCom este novo caminho na investigação sobre o escândalo das armas, o juiz Urso esquiva as manobras dos advogados de Menem, que pretendem indicar que a venda foi feita por questões de política externa. Para isso, Urso convocaria o financista Pedro Stier, suspeito de ter feito operações para a lavagem do dinheiro das armas. O juiz pedirá que a Justiça do Uruguai autorize a suspensão do segredo das contas bancárias de alguns dos suspeitos com contas nesse país.A investigação sobre o patrimônio dos Menem incluiria não somente seus irmãos, mas também sua filha Zulemita, proprietária real de diversas propriedades antes atribuídas ao ex-presidente. A ex-esposa de Menem, Zulema Yoma, e mãe de Zulemita, passou mal na sexta-feira quando soube dessa possibilidade, e foi internada em um hospital.Contra-ataqueOs menemistas planejam um contra-ataque para defender seu líder atacando os escândalos do governo do presidente Fernando De la Rúa. Neste caso, seria trazido de novo ao cenário político o escândalo dos subornos a senadores para aprovação da lei trabalhista no ano passado. Este escândalo causou em outubro passado a renúncia do ex-vice- presidente Carlos "Chacho" Álvarez, que protestava contra a falta de investigações, além da renúncia de diversos senadores suspeitos de terem aceito o suborno.Os menemistas também pretendem investigar irregularidades em concessões petrolíferas à empresa Repsol-YPF, além das comissões recebidas por parte dos bancos que recentemente realizaram a mega-troca de bônus que salvou o país da suspensão de pagamentos da dívida externa.IndultoNo fim de semana, surgiram diversos rumores sobre a hipótese de que Menem seja contemplado com um indulto do presidente De la Rúa. Na sexta-feira o ministro do Interior, o conservador Ramón Mestre, havia dito que "depois que foi concedido o indulto a ex-ditadores e terroristas, não vejo porque descartar" o indulto a Menem.No entanto, neste fim de semana, o secretário-geral da presidência, Nicolás Gallo, e o porta-voz de De la Rúa, Juan Pablo Baylac, afirmaram que o governo não planeja um indulto. Analistas consideram que Menem não aceitaria um eventual indulto já que implicaria em aceitar a culpabilidade.InvadidoEnquanto isso, Menem, acostumado anteriormente a uma agitada e carregada agenda com duas ou três atividades diferentes por dia, está incômodo na chácara onde está cumprindo a prisão domiciliar. "Ele se sente invadido", argumentam seus advogados, se referindo aos curiosos e jornalistas que tentam observar o ex-presidente através de buracos na cerca da propriedade. Além deles, simpatizantes de "El Turco", como é conhecido popularmente, distribuem isqueiros com os dizeres "Menem 2003" sonhando que seu líder recupere a liberdade e mais uma vez seja candidato a presidente.Segundo um de seus assessores, em uma das noites de sua prisão domiciliar, reunido com um grupo de amigos, Menem assistiu o filme "Gladiador", a história de um general romano que é preso injustamente, e depois de muitas peripécias termina assassinando o imperador que o prendeu, vencendo. "Nunca deve se achar que um político foi vencido e não voltará", exclamou Menem, ao identificar-se com o personagem interpretado pelo ator Russel Crowe.

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