CARLO ALLEGRI|REUTERS-29|09|2015
CARLO ALLEGRI|REUTERS-29|09|2015

Justiça argentina recebe pedidos para reativar denúncia de Nisman contra Cristina

Quatro dias antes de ser encontrado morto com um tiro na cabeça em seu apartamento, promotor acusou ex-presidente de proteger iranianos considerados pela Justiça local autores do atentado contra a Associação Mutual Israelita-Argentina (Amia), que matou 85 pessoas em 1994

Rodrigo Cavalheiro, Correspondente / Buenos Aires, O Estado de S.Paulo

02 Agosto 2016 | 15h13

BUENOS AIRES - Uma série de pedidos para reativar a denúncia feita em 2015 pelo promotor Alberto Nisman contra a então presidente argentina Cristina Kirchner chegou nesta terça-feira, 2, à Justiça. Quatro dias antes de ser encontrado morto com um tiro na cabeça em seu apartamento, em 18 de janeiro de 2015, ele a acusou de proteger iranianos considerados pela Justiça local autores do atentado contra a Associação Mutual Israelita-Argentina (Amia), que matou 85 pessoas em 1994. Nisman garantia ter gravações provando que um pacto da Casa Rosada com Teerã, firmado formalmente para ouvir os acusados em seu país de origem, era na verdade um acordo comercial em troca de impunidade.

A denúncia foi arquivada em maio de 2015, sob argumento de que o acordo com o Irã nunca foi colocado em prática por falta de aprovação nos dois países. Mesmo sem o pacto ter entrado em vigor, o governo de Cristina ainda insistiu em sua constitucionalidade para debilitar a tese de Nisman. Com a chegada de Mauricio Macri à presidência, o acerto entre os dois países foi definitivamente enterrado.

Entre as tentativas de desarquivar a ação de Nisman, a que ganhou mais visibilidade foi a da Delegação de Associações Israelitas Argentinas (Daia), representação política da comunidade judaica local. O presidente da entidade, Ariel Cohen Sabban, pediu ao juiz federal Daniel Rafecas, o mesmo que determinou o arquivamento da causa: que aceite a Daia como parte da investigação, função na qual poderia sugerir linhas de investigação e interrogatórios. Foi o próprio Rafecas quem determinou o arquivamento em 2015 e em março negou a reabertura.

"Deixamos claro que não é um pedido político, a favor de um ou outro governo. Não queremos ser usados politicamente, queremos a verdade", disse Cohen a meios locais. Ele foi acusado por kirchneristas de participar de uma ofensiva do governo contra a ex-presidente.

Em outra frente, um grupo de parentes das vítimas requer à Justiça figurar como parte em outra causa em que Cristina e o ex-chanceler Héctor Timerman são suspeitos de traição à pátria. Uma vez aceitos, eles pediriam a inclusão da acusação de Nisman na ação. Em uma terceira linha, o promotor federal Germán Moldes pretende convencer a Justiça a declarar nula a decisão de um tribunal superior que convalidou o arquivamento da denúncia, por dois votos contra um. 

A ex-presidente reagiu na semana passada à série de movimentos feitos durante o recesso do Judiciário. Pelo Twitter, ela acusou o governo Macri de ter um plano para reabrir a denúncia de Nisman, mas não um para frear o desemprego. Cristina é investigada em ações que envolvem fraude financeira, enriquecimento ilícito e lavagem de dinheiro, e seu grupo considerava fechado o flanco aberto por Nisman. 

A investigação da morte do ex-promotor teve após a posse de Macri uma série de mudanças que passaram a fortalecer a hipótese de um homicídio, defendida pela família. No último mês, a apuração voltou a ficar parada na Justiça comum, onde a linha de suicídio era tratada como a central.

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