EFE/EPA/ERDEM SAHIN
EFE/EPA/ERDEM SAHIN

Justiça da Turquia autoriza transformar Santa Sofia em mesquita

Atualmente um museu, basílica foi uma catedral bizantina e uma mesquita; presidente Erdogan autorizou a realização de orações muçulmanas no local a partir do dia 24

Redação, O Estado de S.Paulo

10 de julho de 2020 | 15h11
Atualizado 10 de julho de 2020 | 18h11

ISTAMBUL - O presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, anunciou nesta sexta-feira, 10, a abertura da antiga basílica de Santa Sofia, também conhecida como Hagia Sophia, para orações muçulmanas depois que um tribunal autorizou sua transformação em mesquita, anulando seu atual status de museu.

Segundo Erdogan, as primeiras orações muçulmanas coletivas na antiga basílica serão realizadas no dia 24 de julho, acrescentando que ela "permanecerá aberta a todos, turcos e estrangeiros, muçulmanos e não muçulmanos". 

O Conselho de Estado, o mais alto tribunal administrativo da Turquia, aceitou o pedido de várias associações, revogando uma decisão do governo de 1934 que concedia à Hagia Sophia o status de museu. "O tribunal decide revogar a decisão do conselho de ministros que é objeto deste pedido", afirmou a corte.

Importante obra arquitetônica construída no século 6 pelos bizantinos que ali coroaram seus imperadores, Santa Sofia é um Patrimônio Mundial da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) e uma das principais atrações turísticas de Istambul. Em 2019, recebeu cerca de 3,8 milhões de visitantes.

Convertida em mesquita após a tomada de Constantinopla pelos otomanos em 1453, foi transformada em museu em 1934 pelo líder da então jovem República turca, Mustafa Kemal, ansioso por "oferecê-la à humanidade". 

Seu status, porém, é regularmente alvo de polêmicas. Desde 2005, várias associações levaram a questão à Justiça para exigir um retorno ao status de mesquita.

A Unesco informou lamentar profundamente a decisão das autoridades turcas de modificar o estatuto do museu sem um "diálogo prévio", segundo comentou nesta sexta-feira a diretora da organização, Audrey Azoulay. "Toda modificação nesse sentido deverá ser objeto de uma notificação prévia à Unesco e, nesse caso, de uma análise do Comitê do Patrimônio Mundial", explicou. 

Os Estados Unidos manifestaram, por meio de seu Departamento de Estado, decepção sobre a decisão turca e pediu que o acesso seja garantido a todos os visitantes. 

O tribunal explicou que, nas atas de propriedade da Fundação Mehmet Fatih, nome em homenagem ao sultão otomano que conquistou Constantinopla no século 15, Santa Sofia foi inscrita como mesquita, e essa qualificação não pode ser alterada.

Decreto 

"Foi decidido que a mesquita Santa Sofia será colocada sob a administração da Diyanet (Autoridade de Assuntos Religiosos) e será reaberta às orações", disse Erdogan em um decreto, no qual designou o monumento como uma "mesquita". 

Vários países, principalmente Rússia e Grécia, que acompanham de perto o destino do patrimônio bizantino na Turquia, assim como Estados Unidos e França, alertaram Ancara contra a transformação de Santa Sofia em um local de culto muçulmano, medida pela qual o presidente conservador Erdogan faz campanha há anos.

Pouco antes do anúncio da decisão, a Unesco disse que estava "preocupada" com o destino da antiga basílica e pediu à Turquia para dialogar antes de qualquer medida que pudesse "minar" o "valor universal" deste monumento.

Erdogan, um nostálgico do Império Otomano, que busca atualmente atrair o eleitorado conservador no contexto da crise econômica, devido à pandemia de coronavírus e a um difícil contexto regional, defendeu em várias ocasiões a reconversão de Santa Sofia em uma mesquita. No ano passado, chamou sua transformação em museu de "um grande erro". 

"Santa Sofia é provavelmente o símbolo mais visível do passado otomano da Turquia e Erdogan instrumentaliza a questão para estimular sua base e desafiar seus rivais em casa e no exterior", diz Anthony Skinner, da consultoria Verisk Maplecroft.

Desde a chegada de Erdogan ao poder em 2003, as atividades relacionadas ao Islã se multiplicaram dentro da Santa Sofia, com sessões de leitura do Alcorão e orações coletivas na praça em frente ao monumento.

Comemorações

"Estou muito emocionado. O fato de Santa Sofia perder o status de museu e se tornar uma mesquita anima todos os muçulmanos", disse Mucayit Celik, um morador de Istambul em frente ao monumento.

"É uma decisão que estou esperando há anos. É uma pena que não tenha acontecido antes. Estou muito feliz", acrescentou Umut Cagri, outro morador de Istambul.

Centenas de pessoas se reuniram em frente à antiga basílica, onde uma força policial reforçada foi acionada, agitando bandeiras turcas para comemorar a decisão do Conselho de Estado.

Mesmo que a reconversão de Santa Sofia em mesquita não impeça turistas de todas as religiões de visitarem o local - muitos deles visitam a Mesquita Azul nas proximidades todos os dias -, modificar o status de um lugar tão emblemático na história do Cristianismo pode provocar tensões.

Neste contexto, a Igreja Ortodoxa russa lamentou que a "preocupação de milhões de cristãos" não tenha sido ouvida pelo tribunal turco.

Por meio de sua ministra da Cultura, Lina Mendoni, a Grécia descreveu a decisão do tribunal turco como "uma provocação aberta ao mundo civilizado". / AFP

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