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Justiça da Turquia solta pastor americano preso desde 2016

Andrew Brunson, de 50 anos, foi condenado a três anos de prisão por 'vínculo terrorista', mas teve restrições judiciais suspensas, o que permitirá que ele volte para seu país; ele era acusado de apoiar separatistas curdos e clérigo exilado nos EUA

O Estado de S.Paulo

12 Outubro 2018 | 11h23
Atualizado 12 Outubro 2018 | 17h05

ALIAGA, TURQUIA - Um tribunal turco na cidade de Izmir, no oeste do país, condenou nesta sexta-feira, 12, o pastor americano Andrew Brunson por "vínculos terroristas", mas suspendeu sua prisão domiciliar e as restrições judiciais contra ele, o que permite que o religioso deixe o país e volte para os Estados Unidos.

O caso deste pregador evangélico, preso na Turquia em uma das ondas de expurgo ordenadas pelo presidente Recep Tayip Erdogan depois da tentativa frustrada de golpe em 2016, causou tensões diplomáticas entre Ancara e Washington e ameaçou a relação dos dois países.

O julgamento de Brunson nesta sexta em Izmir, onde ele dirigia uma pequena congregação evangélica, foi concluído poucas horas depois de funcionários do governo americano ouvidos pelo jornal Washington Post dizerem que os dois governos tinham chegado a um acordo para garantir a soltura do religioso.

Em Washington, Jay Sekulow, um advogado da família Brunson envolvido nos trâmites para soltar o pastor, afirmou que o religioso foi libertado sob custódia de diplomatas americanos e deve voar no sábado para uma base do país na Alemanha antes de ser transportado para os EUA. 

Brunson, de 50 anos, ficou preso dois anos sob acusação de terrorismo e espionagem que ele e o presidente americano, Donald Trump, dizem ser falsas. Os procuradores turcos o acusaram de ser ligado tanto a separatistas curdos quanto a uma organização liderada pelo dissidente Fethullah Gülen - acusado por Erdogan de ser o idealizador da tentativa de golpe.

Minutos depois da notícia da libertação de Brunson, Trump escreveu em sua conta no Twitter que espera que o americano volte para casa logo. "Meus pensamentos e orações estão com o pastor Brunson e espero que ele esteja em casa, em segurança, logo!", tuitou o presidente americano.

O religioso americano passou do regime fechado para prisão domiciliar em julho em razão de problemas de saúde, mas o prosseguimento de seu julgamento ajudou a aprofundar a divergência entre Turquia e EUA, que já estavam em desacordo em razão do apoio dos americanos a combatentes curdos que lutam contra o Estado Islâmico na Síria.

O vice-presidente dos EUA, Mike Pence, também se interessou pelo caso de Brunson e ajudou a mobilizar a base de eleitores evangélicos que apoiam Trump em relação a este caso. Nós últimos meses, Washington passou a considerar a libertação do pastor uma prioridade e, em agosto, impôs sanções a dois membros do alto escalão do governo turco para pressionar as autoridades de Ancara.

Erdogan, no entanto, afirmou que seu governo não poderia interferir em um julgamento em andamento. "Não estou em posição de intervir no Judiciário já que a Turquia é um Estado constitucional", escreveu o jornal Hurriyet Daily News, citando o presidente turco. "Devo obedecer qualquer decisão tomada pela Justiça. Todas as partes envolvidas devem seguir as regras do Judiciário. Ponto."

Na quinta-feira, no entanto, funcionários da administração Trump afirmaram ao Post que os dois países tinham um acordo - feito à margem da Assembleia-Geral da ONU - para libertar o pastor.

O acordo, afirmaram as fontes, incluiria a suspensão das sanções americanas ao ministros turcos em troca de uma pena reduzida a Brunson que poderia ser tanto na forma de uma condenação já cumprida - em razão dos dois anos de prisão dele na Turquia - quanto uma condenação em regime aberto - e que pudesse ser cumprida nos EUA.

Especialistas também especulam que as dificuldades econômicas da Turquia após as sanções americana possam ter feito Erdogan interferir no julgamento de Brunson. "A pressão econômica funcionou", opinou Asli Aydintasbas, do Conselho Europeu de Relações Exteriores.

Relembre: as justificativas da Turquia por manter Brunson preso

Inicialmente, procuradores turcos pediram que o americano fosse condenado a 35 anos de prisão por ter espionado e ajudado terroristas usando organizações humanitárias de fachada e diálogo inter-religioso. Depois, já durante o julgamento, o pedido de condenação foi reduzido para dez anos.

Nesta sexta-feira, o pastor foi condenado a três anos de prisão, mas a sentença foi reduzida pelo juiz para dois anos - mesmo período que ele já cumpriu enquanto estava preso preventivamente - em razão de seu bom comportamento.

"O veredicto foi o melhor possível em uma situação ruim", disse o advogado de defesa de Brunson, Ismail Cem Halavurt, do lado de fora do tribunal. "Espero que ele possa voltar (para cá). Ele (Brunson) é uma pessoa que, absolutamente, ama a Turquia."

"Bendito seja Deus", disse o reverendo William Devlin de Nova York, que acompanhou todas as audiências de Brunson. "O pastor Brunson vai para casa. Agradecemos ao tribunal, à Turquia e ao presidente Erdogan." / WASHINGTON POST e NYT

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