Justiça do Irã condena réu à cegueira

Vítima de banho de ácido recorre à lei islâmica para obter castigo a agressor

Thomas Erdbrink, The Washington Post, O Estadao de S.Paulo

16 de dezembro de 2008 | 00h00

Há quatro anos, um pretendente desprezado despejou um balde de ácido sulfúrico na cabeça de Ameneh Bahrami, que ficou cega e desfigurada por causa das queimaduras. No fim do mês passado, um tribunal iraniano ordenou que cinco gotas da mesma substância química fossem colocadas em cada um dos olhos do homem que a atacou. A sentença ainda não foi cumprida, mas a pena respeitou o desejo de Ameneh. A lei islâmica permite que a vítima peça para o réu o castigo de ser vítima do crime que ele mesmo cometeu.A adoção de punições corporais, como chibatadas, amputações e apedrejamento, tem provocado muita polêmica no Irã, onde muitas pessoas consideram estas sentenças bárbaras. Mas este caso foi diferente. A jornalista Asieh Amini, que escreve sobre direitos humanos e se opõe à sentença, disse que os protestos estão sendo menos intensos porque a opinião pública se comoveu com a história de Ameneh. "É difícil não se envolver emocionalmente com o que aconteceu com ela", afirmou Asieh. Ameneh disse que lutou por muito tempo e com todas as forças para obter justiça. "Estou na idade em que poderia me casar, portanto, peço que os olhos de certa pessoa sejam borrifados com ácido", disse recentemente em uma entrevista. "Estou fazendo isso porque não quero que se repita com outras mulheres o que aconteceu comigo." Em 2002, Ameneh tinha 24 anos e estudava eletrônica numa universidade em Teerã. Ela e algumas amigas fizeram uma coleta de agasalhos para um estudante mais jovem e pobre, Majid Movahedi, e pediram a um professor que entregasse a doação. Movahedi ficou impressionado com o gesto de Ameneh, embora os dois nunca tenham trocado uma palavra sequer. "Ele enlouqueceu por causa dela", comentou Aziz Movahedi, pai de Majid. Contudo, Ameneh não correspondia a seus sentimentos. Em 2003, a mãe de Movadehi visitou os pais de Ameneh para propor o casamento dos filhos. "Eu recusei educadamente", afirmou Ameneh. Movahedi não aceitou a recusa e começou a esperá-la na porta do trabalho e a pará-la na rua, gritando que se mataria caso ela não aceitasse o pedido de casamento. A polícia disse que não poderia fazer nada, pois não havia sido cometido nenhum crime. Para tentar se livrar de Movahedi,em outubro de 2004, Ameneh inventou que estava noiva e se casaria em breve. Três dias mais tarde, Ameneh estava atravessando um parque no caminho de casa, quando alguém bateu de leve no seu ombro. Ao virar-se, um fluido que queimava espalhou-se pelo seu rosto."Tive a impressão de ter enfiado a cabeça em um balde de água fervendo", conta. Ameneh lembra que uma multidão se juntou ao seu redor. "Um sujeito se aproximou com uma lata de água. Joguei água no rosto, mas com isso o ácido se espalhou pelos meus braços e por todo o corpo", conta. Movahedi entregou-se à polícia duas semanas depois do ataque. Em uma audiência preliminar, ele reconheceu ter atacado Ameneh e foi mantido sob custódia até o julgamento. Ameneh foi transferida para uma unidade de queimados onde foi submetida a uma série de cirurgias nos seis meses seguintes.

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