Arquivo/AP
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Justiça dos EUA condena militar chileno por morte de cantor Víctor Jara

Ex-oficial Pedro Pablo Barrientos Núñez, acusado de torturar e matar o ativista em 1973, foi condenado a indenizar a família da vítima em US$ 28 milhões

O Estado de S. Paulo

27 Junho 2016 | 19h47

Uma corte federal americana condenou nesta segunda-feira, 27, o ex-oficial chileno Pedro Pablo Barrientos Núñez pela tortura e assassinato do compositor Víctor Jara, em 1973, e ordenou uma indenização de US$ 28 milhões à família da vítima.

Em duas semanas, em um processo civil, seis jurados decidiram um dos mais emblemáticos casos de violação dos direitos humanos cometidos durante a ditadura de Augusto Pinochet (1973-1990).

A família de Jara argumentou que Barrientos - que agora vive na Flória - era o responsável pelos soldados no estádio onde o artista foi torturado e assassinado nos dias seguintes ao golpe liderado por Pinochet. Milhares de opositores políticos foram torturados e desapareceram nesse período. 

"Aqui começa a justiça para todas as famílias do Chile que esperam conhecer o destino de seus entes queridos", disse Joan Jara, 89 anos, viúva de Víctor, ao deixar a corte federal na Flórida. Barrientos negou sua culpa e afirmou que o caso nunca deveria ter chegado ao tribunal. Seu advogado, Luis Calderón, disse que não sabia se apelaria da decisão. "Estamos decepcionados pelo veredicto dos jurados", afirmou Calderón. 

A demanda foi apresentada por Joan Jara, pela filha de Víctor, Amanda, que tinha 8 anos quando o pai foi morto, e pela enteada do cantor, que tinha 13 anos na época. O caso se sustentou na Lei de Proteção a Vítimas de Tortura, que permite dar entrada a processos nos EUA contra pessoas que já cometeram atos de tortura. 

"É um processo para que os criminosos vejam que se cometerem um crime em qualquer lugar do planeta, não se pode escapar ou se esconder", disse Amanda. 

Jara era um cantor popular e ativista político que trabalhou para a candidatura de Salvador Allende, o socialista eleito presidente do Chile em 1970. Os esforços de Allende para nacionalizar indústrias, incluindo a expropriação de companhias de cobre americanas, geraram intensa oposição interna e nos EUA, que se opunham às influências de esquerda na América Latina, em um contexto da Guerra Fria.  

Pinochet, um comandante do Exército, orquestrou um golpe de Estado contra o governo de Allende em setembro de 1973. Allende se suicidou após liderar uma frustrada resistência a um ataque militar sobre o palácio presidencial 

Víctor Jara foi preso durante um avanço do Exército à universidade em que trabalhava, e levado a um estádio que havia sido convertido em uma prisão improvisada para cerca de 5 mil presos. Ele foi transferido para um vestiário subterrâneo onde foi espancado brutalmente e alvejado mais de 40 vezes, de acordo com o processo. 

Em 1978, Joan Jara tentou a abertura de uma investigação penal no Chile, mas esses esforços esbarraram em uma lei que concedia anistia a qualquer um que tivesse cometido crimes entre 1973 e 1978. 

Em 2012, a Corte de Apelações de Santiago acusou Barrientos como um dos autores do homicídio de Jara, mas o processo não foi adiante porque a lei chilena não permite julgamentos a revelia. Isso deixou a família sem opções no Chile. / AP e AFP  

 

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