Eduardo Verdugo/ AP
Eduardo Verdugo/ AP

Traficante mexicano 'El Chapo' é condenado à prisão perpétua nos EUA

Líder do cartel de Sinaloa, famoso por duas fugas espetaculares no México antes de ser extraditado, foi julgado por tribunal federal em Nova York; além da prisão, deverá pagar aos EUA US$ 12,6 bilhões

Redação, O Estado de S.Paulo

17 de julho de 2019 | 11h20
Atualizado 18 de julho de 2019 | 19h06

NOVA YORK -  O líder do Cartel de Sinaloa, Joaquín “El Chapo” Guzmán, foi condenado nesta quarta-feira, 17, à prisão perpétua pela Justiça federal dos Estados Unidos. 

Depois de três meses em que a promotoria apresentou uma montanha de provas, em 12 de fevereiro, um júri declarou "El Chapo" culpado de traficar ou tentar traficar mais de 1.250 toneladas de drogas aos Estados Unidos, principalmente cocaína

Ele também recebeu uma pena de 30 anos adicionais à da prisão perpétua, além do pagamento de uma multa de US$ 12,6 bilhões, valor equivalente a uma parcela do que o cartel lucrou no tráfico de cocaína e outras drogas aos EUA em 25 anos.

Guzmán foi condenado pelo juiz federal Brian Cogan, do Tribunal do Brooklyn. Entre os crimes pelos quais cumprirá a pena estão formação de quadrilha, narcotráfico, lavagem de dinheiro e uso de armas de forma violenta. 

Ao receber a sentença, El Chapo criticou o juiz por ter se recusado a abrir um novo julgamento, como havia sido solicitado pela defesa. "O meu caso estava manchado e você negou a mim um julgamento justo enquanto o mundo inteiro estava observando", afirmou por um intérprete. "Eu pego essa oportunidade para dizer que não houve justiça aqui". À Corte, Chapo disse antes de receber a sentença que esperava, quando foi extraditado pelo México para os EUA, que sua fama não seria um fator determinante para a Justiça.

Chapo foi declarado culpado em fevereiro, mas a sentença somente foi divulgada nesta quarta-feira, como é comum no sistema judiciário americano. Ele cumpre prisão preventiva em um presídio federal em Nova York desde quando chegou aos EUA, há dois anos e meio. Agora, especialistas acreditam que ele será transferido à um presídio de segurança máxima na cidade de Florence, no Colorado, onde os detentos ficam na cela 23 horas por dia e têm pouco acesso à interação com outras pessoas.

O curioso julgamento do mexicano em Nova York foi um mergulho surrealista dentro de um dos maiores cartéis de drogas, uma janela aberta para a vida até então misteriosa do chefão mexicano, famoso pelos túneis construídos para traficar drogas para os Estados Unidos ou para escapar da prisão.

Como numa série de TV sobre o narcotráfico, dezenas de personagens reais, incluídas 56 testemunhas do governo americano, entre eles velhos sócios de "El Chapo", rivais, uma ex-amante e agentes do FBI, relataram a história do criminoso. Confira os momentos mais marcantes do processo:

Torturas, assassinatos

Ex-matador de "El Chapo", Isaías "Memín" Valdez Ríos garantiu que viu o próprio chefe torturar e executar três traficantes rivais. Um deles foi enterrado vivo depois de ser baleado pelo líder criminoso, outros dois foram espancados a pauladas antes de serem executados e lançados em uma fogueira.

A promotoria garante que "El Chapo" mandou matar ou torturou e assassinou com as próprias mãos pelo menos 26 pessoas ou grupos de pessoas.

Subornos

Dois ex-sócios de "El Chapo" contaram como subornaram com milhões de dólares em dinheiro funcionários do alto escalão do governo mexicano para encontrar rivais, expandir o negócio e fugir das autoridades, bem como da polícia judiciária, federal e municipal, militares e até da Interpol.

Segundo o advogado do narcotraficante, Jeffrey Lichtman, também receberam propina dois ex-presidentes do MéxicoEnrique Peña Nieto e Felipe Calderón, que negaram as acusações.

Chupeta

Com o rosto desfigurado por incontáveis cirurgias plásticas para modificar os olhos, nariz, mandíbula, bochechas e orelhas, o ex-chefe do cartel colombiano Norte del Valle Juan Carlos "Chupeta" Ramírez contou como com a ajuda do criminoso mexicano para exportou mais de 400 toneladas de cocaína para os Estados Unidos entre 1989 e 2007, ano em que foi detido.

Chupeta, que confessou ter ordenado a morte de cerca de 150 pessoas e ser um dos principais fornecedores de cocaína de "El Chapo", disse que contratou seus serviços (com pagamento em droga) porque enviava os carregamentos para os Estados Unidos muito rápido.

Negociante

O ex-contador de "El Chapo", Jesús "Rei" Zambada, irmão do cofundador do cartel de Sinaloa Ismael "Maio" Zambada, relatou que o comprava cocaína colombiana por US$ 3 mil o quilo e a vendia em Nova York por US$ 35 mil. 

Milionário

Tratamentos de rejuvenescimento em clínicas suíças, uma mansão em frente ao mar em Acapulco com um iate chamado "Chapito" na porta, ranchos em todos os estados, quatro jatos e um zoológico particular com leões e panteras, onde ele passeava em um trenzinho.

Na década de 1990, a cocaína "era o melhor negócio do mundo" e "El Chapo" era o rei do México, relatou o ex-tesoureiro do traficante, Miguel Ángel "Gordo" Martínez, que escapou de quatro tentativas de homicídio ordenadas pelo ex-chefe. "Viajávamos por todo o mundo (...) BrasilArgentinaAruba, por toda EuropaJapãoHong KongTailândiaPeruCubaColômbiaPanamá", enumerou. E para Macau "para apostar".

Lucero Guadalupe Sánchez López, a amante

Ex-amante e ex-sócia de "El Chapo", Lucero Guadalupe Sánchez López contou diante da mulher do ex-parceiro, Emma Coronel, como numa madrugada de 2014 ambos evitaram ser presos por fuzileiros mexicanos ao escapar por um túnel construído debaixo de uma banheira, numa casa de Culiacán.

"El Chapo" estava totalmente nu e saiu correndo na frente, deixando-a para trás.

Diretor de cinema

"El Chapo" queria produzir e dirigir um filme sobre sua vida, tendo trabalhado vários anos nesse projeto, disse seu ex-braço direito, o narcotraficante colombiano Alex Cifuentes.

Para a produção, desejava contar com a assessoria da atriz Kate Del Castillo, com quem falava por telefone e queria que atuasse no filme, com roteiro elaborado em parceria com um produtor colombiano que chegou a ser contratado para a empreitada. 

O outro Chapo

O ator mexicano Alejandro Edda, que interpretou o criminoso mexicano na série Narcos: México, produzida pela Netflix, trocou cumprimentos com o narcotraficante no tribunal.

Edda disse que foi "estudar um senhor que de certa maneira é como um mito, uma lenda". "El Chapo" sorriu e disse ao advogado que seu intérprete não era tão alto quando imaginava.

Emma Coronel, a esposa

Emma Coronel, a esposa de "El Chapo" de 30 anos, mãe de suas pequenas filhas gêmeas, acompanhou praticamente todos os dias do julgamento, olhando e sorrindo para o marido de 62 anos.

As autoridades não deixam ela ter qualquer tipo de contato físico ou por telefone com o narcotraficante. / AFP e AP

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.