Justin Tallis / AFP
Justin Tallis / AFP

Justiça dos EUA indiciou Assange em segredo, segundo ‘Washington Post’

Em um documento divulgado por engano, procurador pediu a juiz que mantenha as acusações sob sigilo até o fundador do WikiLeaks ser preso

O Estado de S.Paulo

16 de novembro de 2018 | 06h18
Atualizado 16 de novembro de 2018 | 16h20

WASHINGTON - O Departamento de Justiça dos Estados Unidos indiciou o fundador do WikiLeaks, o australiano Julian Assange, em um procedimento secreto que foi revelado por engano, informou nesta sexta-feira, 16, o jornal The Washington Post. A medida marca uma escalada drástica na longa batalha do governo contra ele e seu grupo anti-sigilo, e pode avançar as investigações sobre a interferência da Rússia nas eleições de 2016.

Em uma carta a um juiz que foi tornada pública, o procurador Kellen Dwyer escreveu que, “em razão da sofisticação do réu e da publicidade em torno do caso, é provável que nenhum outro procedimento mantenha confidencial o fato de que foi acusado”. Mais tarde, Dwyer escreveu que as acusações “precisariam ser mantidas sob sigilo até Assange ser preso”.

Ainda não se sabe quais acusações pesariam sobre Assange, mas os EUA já haviam estudado anteriormente a possibilidade de indiciá-lo por conspiração, roubo de propriedade governamental e violação da Lei de Espionagem pela divulgação de documentos secretos do Pentágono e do Departamento de Estado americano em 2010 no WikiLeaks.

"Furo: o Departamento de Justiça 'acidentalmente' revelou a existência de acusações confidenciais (ou um rascunho para elas) contra o editor do WikiLeaks Julian Assange, em um aparente erro de 'copiar e colar' em um caso não relacionado", escreveu o WikiLeaks no Twitter.

Um dos advogados de Assange, Barry Pollack, disse ao Post que "a única coisa mais irresponsável que acusar alguém por publicar informação verídica seria tornar pública uma informação que claramente não estava destinada ao público e não avisar Assange". "Obviamente, não tenho nem ideia se realmente lhe acusaram ou de que, mas a ideia de ser acusado por crimes federais por publicar informação verídica é um precedente perigoso", acrescentou Pollack.

A acusação de Assange nos Estados Unidos poderia ter implicações na investigação comandada pelo procurador especial Robert Mueller sobre um suposto conluio da campanha presidencial de Donald Trump de 2016 com a Rússia, e sobre se Trump obstruiu a Justiça na investigação.

Em julho, Mueller acusou 12 espiões russos de conspiração ao hackear os computadores do Comitê Nacional Democrata, assim como por roubo de informação e publicação dos arquivos com o objetivo de distorcer o resultado da votação. Uma das acusações faz referência ao WikiLeaks, descrito como "Organização 1" e plataforma usada pelos russos para divulgar os e-mails roubados.

A imprensa americana foi alertada no fim da noite de quinta-feira sobre a revelação involuntária graças a um tuíte de Seamus Hugues, vice-diretor do Programa de Extremismo da Universidade George Washington, conhecido por monitorar arquivos judiciais.

"Aconteceu um erro na apresentação ao tribunal", disse Joshua Stueve, porta-voz do gabinete da Promotoria no distrito leste de Virgínia.

Assange, de 47 anos, permanece desde 2012 na embaixada do Equador em Londres, onde buscou refúgio ante o temor de uma extradição aos Estados Unidos pela divulgação em 2010 de milhares de documentos confidenciais americanos.

O fundador do WikiLeaks procurou asilo depois que um juiz britânico decidiu a favor de sua extradição à Suécia, onde Assange enfrentava acusações de estupro, que depois foram arquivadas. Ele considerava a extradição uma desculpa para ser levado para os Estados Unidos.

Londres afirma agora que ele deve enfrentar a Justiça por não cumprir as regras da liberdade condicional ao buscar refúgio na representação equatoriana, mas Assange teme que a situação termine com sua extradição aos EUA. / W.POST, NYT, EFE e AFP

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