Mike Segar/Reuters
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Justiça dos EUA rejeita fiança para diretor do FMI suspeito de estupro

Tribunal também responde negativamente a pedido da defesa para que Strauss-Kahn fosse libertado sob a condição de utilizar um bracelete eletrônico; se condenado por todas as acusações, político socialista francês pode ser sentenciado a mais de 74 anos

Gustavo Chacra, O Estado de S.Paulo

17 de maio de 2011 | 00h00

CORRESPONDENTE / NOVA YORK

A Justiça de Nova York rejeitou um pedido para que o diretor executivo do Fundo Monetário Internacional (FMI), Dominique Strauss-Kahn, acusado de ataque sexual contra uma camareira em um hotel de Manhattan, fosse libertado mediante pagamento de US$ 1 milhão de fiança para responder ao processo em liberdade.

A decisão dificulta ainda mais a possibilidade de Strauss-Kahn retomar as suas atividades na organização internacional e praticamente elimina suas chances de disputar as eleições para a presidência da França em 2012. Até sua prisão, ele liderava as pesquisas, à frente do presidente Nicolas Sarkozy.

Além de ter o pedido de fiança negado, Strauss-Kahn também foi submetido a um exame para verificar se há indícios do suposto ataque contra a camareira, no sábado, em uma suíte do Hotel Sofitel, cuja diária pode chegar a US$ 3 mil por dia, na região da Times Square. A possibilidade de que um teste de DNA seja realizado não está descartada. Ele também foi reconhecido pela vítima ao ser perfilado com outras pessoas em uma delegacia.

A juíza Melissa Jackson aceitou os argumentos de que Strauss-Kahn poderia fugir do país e seria melhor a permanência dele na prisão enquanto prosseguem as investigações. "A ida de seu cliente ao aeroporto causa preocupação", afirmou, ao se dirigir para o advogado de defesa, Benjamin Brafman, conhecido por ter defendido clientes como Michael Jackson.

Ao ouvir a rejeição da fiança, o advogado de Strauss-Kahn ainda sugeriu que o acusado usasse um bracelete eletrônico. Com o instrumento, a polícia teria condições de monitorar a movimentação dele. Mas a juíza rejeitou a proposta e determinou que a próxima audiência ocorra na sexta-feira. Segundo documentos apresentados no tribunal, as sete acusações apresentadas contra Strauss-Kahn poderiam resultar em uma sentença de até 74 anos e 3 meses de prisão.

A promotoria afirmou que há evidências de que o acusado tentou fugir - como o fato de ele ter largado celular e outros pertences no quarto. Também há suspeitas de que Strauss-Kahn teria um antecedente na Europa. Segundo o promotor John McConnell, a camareira avisou que entraria no quarto e deixou a porta aberta, como é padrão em hotéis. "Ele trancou a porta e impediu a camareira de fugir", disse, sem citar o nome da funcionária.

"Ele colocou as mãos em seus seios sem permissão, tentou remover sua meia-calça e enfiou a mão na região genital da vítima. O pênis dele também entrou em contato com a boca da vítima duas vezes por meio do uso da força", acrescentou. Os ataques teriam ocorrido tanto no quarto quanto no banheiro da suíte. Em seguida, Strauss-Kahn teria saído correndo do hotel e ido para o aeroporto, segundo a acusação.

O advogado de defesa lamentou a decisão da juíza. De acordo com ele, o próprio Strauss-Kahn ligou para o hotel para avisar que tinha esquecido o telefone, indicando, segundo Brafman, que não havia intenção de fugir - graças ao telefonema, a polícia o localizou no avião da Air France. A passagem estava marcada havia dias, sem nenhuma alteração de última hora, disse o advogado. Segundo Brafman, o diretor do FMI estava almoçando num restaurante da área na hora do ataque e a pessoa que o acompanhava vai depor. "Há um caso muito defensável e ele deveria ter recebido o direito à fiança. Estamos decepcionados com a decisão e provaremos que Strauss-Kahn é inocente", disse Brafman. O diretor do FMI, que estaria hoje na Europa para discutir as crises em Portugal e Grécia, estava abatido e com barba por fazer.

PASSOS DO PROCESSO

Investigação: A Unidade Especial de Investigação sobre Crimes Sexuais analisa as

denúncias contra Strauss-Kahn

Acusação: A procuradoria do distrito onde ocorreu o episódio avalia se formaliza a denúncia

Processo: Um juiz é designado para o caso. Em audiência, o acusado pode declarar-se culpado, e tentar um acordo, ou inocente, e seguir com o processo

Julgamento: O caso segue e um promotor tem duas escolhas: enviá-lo para um júri popular, ou para uma moção preliminar, que analisará as provas e sugerirá um acordo. Caso ele não aconteça, haverá um julgamento

PONTOS-CHAVE

Bill Clinton

O ex-presidente dos EUA envolveu-se num escândalo sexual com a estagiária da Casa Branca, Monica Lewinsky. Clinton sofreu processo de impeachment, mas foi absolvido

Gary Hart

Estrela em ascensão do Partido Democrata, o senador retirou-se da corrida presidencial de 1987 após a publicação de fotos em que era visto com a modelo Donna Rice em um iate

Eliot Spitzer

Governador de Nova York renunciou em março de 2008 após revelação de que ele usou os serviços de uma rede de prostituição. A brasileira Andréa Schwartz foi uma das testemunhas do caso.

Silvio Berlusconi

O primeiro-ministro italiano é acusado de ter pago por serviços sexuais à dançarina marroquina Karima el Mahroug, a "Ruby", que, à época, no início de 2010, ainda era menor

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