Justiça e poder na França

Os juízes franceses andam com uma energia extraordinária. No mesmo dia, meteram o bedelho nos assuntos de duas figuras eminentes: o presidente Nicolas Sarkozy e o socialista Dominique Strauss-Kahn, ex-diretor do Fundo Monetário Internacional (FMI), que seguramente seria o sucessor de Sarkozy se não tivesse tropeçado numa camareira do Hotel Sofitel, em Nova York, com quem passou 8 ou 9 minutos, apesar de ela resistir.

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

28 Março 2012 | 03h05

Sarkozy, primeiro. A França tem uma multibilionária, Liliane Bettencourt, proprietária da L'Oréal. Uma senhora idosa e muito boa. Ela distribui dinheiro para todo o mundo, principalmente depois que suas faculdades mentais ficaram um pouco embotadas. Ora, um juiz acaba de indiciar o administrador da fortuna de Liliane, o senhor De Maistre, suspeito de ter fornecido enormes quantias de dinheiro para Sarkozy durante as eleições de 2007 que o levaram à presidência.

Que risco corre Sarkozy? Nenhum, pois está protegido pela imunidade presidencial. No entanto, sabemos que, a 30 dias da eleição e no fim de uma campanha eleitoral violenta e obscurecida pelos abomináveis assassinatos em Toulouse, esse questionamento envolvendo o presidente é lamentável. Imaginamos as perfídias que ele terá de ouvir. Um suposto partidário de Sarkozy já vem dizendo aos eleitores: "Votem todos em Sarkozy, pois se ele não for eleito irá para a prisão".

Strauss-Kahn, por seu lado, já passou alguns meses na prisão no ano passado, acusado de assédio sexual pela camareira do hotel de Nova York. Após algumas semanas, ele foi libertado por falta de provas, mas deve comparecer perante os juízes novamente. E não é tudo. Esta semana, compareceu a um tribunal na França por um motivo similar: ele teria participado de "orgias" nos palácios de Lille, Washington e Paris.

O problema é que as jovens que participaram das festas não eram burguesas, como diz Strauss-Kahn, mas prostitutas. O ex-dirigente do FMI foi indiciado pelo juiz de Lille por "favorecimento à prostituição agravado por formação de quadrilha".

A derrocada de um dos economistas mais brilhantes do mundo, casado com uma mulher belíssima e riquíssima, Anne Sinclair, surpreende. Um homem que fez da sua vida um monumento esplêndido. Na França, teve uma carreira brilhante de deputado e ministro. Depois, tornou-se diretor do FMI. Pretendia ser candidato a presidente e sua eleição era dada como certa diante da superioridade intelectual frente a todos os rivais.

O monumento da sua vida, portanto, estava concluído. Logo, poderia instalar no topo do edifício a bandeira da vitória absoluta, mas viu num corredor do Hotel Sofitel uma camareira e saltou sobre ela.

E acabou. O suntuoso edifício caiu por terra. No lugar da glória, a infâmia e o desprezo. Talvez a prisão. Alguns minutos de transe sexual. A "pulsão" foi mais forte do que a "ambição". / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

 

*É CORRESPONDENTE EM PARIS

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