EFE
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Justiça egípcia estuda soltar Mubarak e atribui homicídios a islamista deposto

Militar que comandou ditadura por 30 anos é inocentado em um de seus processos e pode ganhar liberdade condicional esta semana, enquanto Mohamed Morsi, presidente derrubado em julho, sofre nova acusação; 29 morrem em ataque no Sinai

Andrei Netto, enviado especial ao Cairo, O Estado de S. Paulo

19 de agosto de 2013 | 22h32

A revelação de que Mubarak, 85 anos – 30 dos quais no comando do país –, pode deixar a prisão "em 48 horas" foi feita à agência Reuters pelo advogado de defesa Fareed el-Deeb. O ex-ditador foi condenado no ano passado a prisão perpétua por cumplicidade na morte de manifestantes entre janeiro e fevereiro de 2011. Em janeiro, a Justiça ordenou um novo julgamento.

Detido na prisão de Tora, periferia sul do Cairo, Mubarak poderia ser libertado porque já espera por julgamento há mais de dois anos – prazo máximo estabelecido pela legislação local. O ex-ditador só não foi solto até aqui porque respondia a um processo por corrupção, cuja acusação caiu ontem. "O que ficou é apenas um procedimento administrativo que não poderia tomar mais de 48 horas para ser resolvido", afirmou Deeb. "Ele deve ser solto até o fim da semana."

Aos olhos da opinião pública – em especial de islamistas e de jovens liberais –, a libertação de Mubarak reforçaria a impressão de que o atual governo interino, formado após o golpe de 3 de julho e presidido por um civil, Adli Mansour, é na realidade a reencarnação do antigo regime. Não é segredo, nem no Egito, nem no exterior, que o homem forte do governo de facto é o ministro da Defesa e chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, general Abdel Fattah al-Sisi. Hazem el-Sisi, um dos coordenadores da Associação Nacional pela Mudança, organização liberal que lançou ao lado do movimento Tamarod (Rebelde) a campanha pela deposição de Morsi, disse ao Estado não acreditar na libertação neste momento por motivos políticos. Segundo ele, o governo sabe que, caso solte o ditador, a opinião pública, liderada pela juventude laica, vai se levantar. "Se Mubarak for libertado, todos no Egito dirão que o general Sisi é representante do antigo regime", adverte, prevendo benefícios também para a Irmandade Muçulmana. "Seria uma razão para a Irmandade dizer que só ela é a revolução."

Coincidência ou não, a Justiça egípcia prolongou nessa segunda a prisão provisória de Mohamed Morsi por mais 15 dias por crime de "cumplicidade de morte e tortura" durante sua administração. A acusação diz respeito à morte de cinco oposicionistas em dezembro de 2012, quando uma multidão protestava no Cairo contra o decreto presidencial que ampliava os poderes do chefe de Estado e contra o rascunho da Constituição, que seria aprovado semanas depois por referendo popular.

Violência. Enquanto a confusão reina nos planos político e jurídico, a violência segue em alta no Egito. Nessa segunda, 29 militares morreram em dois ataques na região de Sinai, na fronteira com a Faixa de Gaza. Do total, 25 vítimas estavam em um micro-ônibus que teria sido atacado com metralhadoras e lança-foguetes por islamistas radicais, segundo o Ministério do Interior. Desde 3 de julho, 73 militares morreram em ataques "terroristas" na região, a mais instável do país.

Por outro lado, em Helwan, no Cairo, e cidades vizinhas como Zagazig, houve protestos de militantes e simpatizantes da Irmandade pela ação da polícia que deixou 37 prisioneiros mortos durante o transporte de 600 detidos para a prisão de Abu Zaabal, na noite de domingo.

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