Justiça francesa detém 4 em caso de caixa 2

Gestores da fortuna de Liliane Bettencourt terão de prestar depoimento sobre fraudes; empresária financiaria campanha do partido de Sarkozy

Andrei Netto, correspondente em Paris, O Estado de S.Paulo

16 de julho de 2010 | 00h00

As suspeitas de evasão fiscal por parte da bilionária francesa Liliane Bettencourt, proprietária da L"Oréal, cresceram ontem, em Paris. Três dos gestores de sua fortuna e seu mais próximo amigo foram detidos pela Justiça para prestar depoimentos sobre transferências ilegais de fundos para as Ilhas Seychelles, sem o conhecimento das autoridades da França.

A investigação é um dos vértices da crise política que envolve o partido do presidente Nicolas Sarkozy, a União por um Movimento Popular (UMP), que teria organizado um esquema de caixa 2 alimentado pela herdeira da companhia de cosméticos.

Os detidos pelo Ministério Público de Nanterre foram o principal gestor de fortuna de Liliane, Patrice de Maistre, o ex-advogado fiscal da bilionária, Fabrice Goguel, o gerente da Ilha de Arros, em Seychelles, Carlos Vejarano, e o fotógrafo François-Marie Banier, para quem a empresária doou ? 1 bilhão no início da década. Todos são investigados pela Brigada Financeira da França porque teriam participado do esquema de evasão fiscal. As irregularidades já foram, em parte, reconhecidas pela bilionária.

Escândalo. Na prática, as detenções temporárias não têm status de prisão, mas ainda poderiam evoluir para tal na noite de ontem. A investigação não tem relação direta com as acusações contra Sarkozy e seu partido, mas confirma a força das denúncias.

As suspeitas de evasão fiscal de Liliane fazem parte do escândalo político que atinge o Palácio do Eliseu. Segundo denúncias feitas pela ex-contadora da bilionária, Claire Thibaud, Patrice de Maistre faria regularmente doações ilegais ao caixa 2 da UMP, em especial ao tesoureiro do partido, Eric Woerth, atual ministro do Trabalho. Em contrapartida, segundo se suspeita, Woerth teria feito vista grossa às evasões fiscais da bilionária quando era ministro do Orçamento.

Para lembrar

O testemunho de Claire Thibaud, ex-contadora da bilionária Liliane Bettencourt, ao site Mediapart confirmou a proximidade entre o ministro do Trabalho da França, Eric Woerth, e a empresária. Claire também deu detalhes sobre a procissão de políticos que frequentaria o escritório de Liliane em busca de doações de ? 50 mil. Segundo ela, seu chefe, Patrice de Maistre, responsável pela gestão da fortuna de Liliane, pediu-lhe em março de 2007 que retirasse ? 150 mil para financiar a campanha de Nicolas Sarkozy. "Maistre disse que jantaria com Woerth (então tesoureiro de campanha) para repassar os 150 mil", afirmou a contadora.

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