Justiça libera áudios das vítimas do 11 de setembro

O fantasma do 11 de setembro voltará a aparecer para várias famílias a partir da sexta-feira, depois que ouvirem as gravações com as vozes de seus entes queridos pouco antes de encontrarem a morte nas Torres Gêmeas de Nova York. Para trás, fica uma longa disputa judicial promovida por um grupo de nove famílias, que lutaram legalmente contra a prefeitura para ter acesso ao conteúdo das últimas ligações telefônicas feitas por seus parentes mortos no atentado. Depois de mais de quatro anos, a prefeitura de Nova York anunciou que divulgará publicamente na sexta-feira cerca de 30 gravações, nas quais não será ouvida a voz das pessoas que fizeram as ligações, mas só dos que os atenderam através do serviço de emergência 911. O jornal The New York Times, envolvido na causa, obteve na quarta-feira o sinal verde de um juiz para divulgar os nomes das vítimas que fizeram as ligações. Choque emocional As famílias, por sua vez, receberão uma cópia completa da gravação, o que significou um choque psicológico para muitas delas, que não esperavam voltar a ouvir a voz do filho, esposa ou marido falecido nos atentados. A maior parte das famílias soube por carta, no último fim de semana, que existia uma cópia da ligação feita por seu parente antes de morrer, e que poderia ter acesso ao material poucos dias depois. O pai de uma das vítimas dos ataques, Bill Doyle, qualificou esta iniciativa de "totalmente grosseira" e disse que o fato pode causar um choque emocional em muitas pessoas. Uma das mães sofreu um desmaio ao abrir a caixa do correio e saber da existência da gravação, segundo divulgou a rede CNN. A prefeitura de Nova York dispõe de gravações de 130 ligações de emergência feitas a partir das Torres Gêmeas, mas boa parte não delas não foi identificada. Apenas uma das pessoas que fizeram chamadas para o 911 conseguiu sobreviver. Apesar do choque emocional, muitos não resistiram à tentação de saber como foram os últimos momentos na vida de seus familiares, e sobretudo, de voltar a ouvir suas vozes quatro anos e meio após a tragédia. O casal, Joe e Marie Hanley foi um dos primeiros a obter o CD com a gravação da voz de seu filho Christopher, concordando inclusive que o Times colocasse o material em áudio disponível em seu site. Na gravação, ouve-se a voz do rapaz, de 35 anos, relatar ao serviço de emergências com impressionante sangue frio que ele estava, como outras dezenas de pessoas, no 106º andar, que houve uma explosão e que ele quase não conseguia respirar devido à fumaça. Hanley participava de uma reunião organizada por uma filial da agência britânica de notícias Reuters no último andar do edifício quando um dos aviões chocou-se contra o arranha-céu entre o 94º e o 9º andar, apenas 25 metros abaixo de onde se encontrava. Memória Independentemente do impacto que possa ter nos parentes, essas gravações constituem um elemento importante na memória do 11 de setembro, pois quase não há registro da situação e da atitude tomada pelas pessoas que se encontravam nos andares mais altos. No entanto, muitas famílias entendem que a divulgação das gravações significa um retrocesso no longo e penoso processo de superação psicológica dos incidentes.

Agencia Estado,

30 Março 2006 | 16h28

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