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'Justiça no México não é para os pobres'

Pais de estudantes desaparecidos em Iguala vão até a ONU pedir ajuda internacional 

Entrevista com

Barnabe Gaspar, pai de um dos 43 estudantes desaparecidos no México

Jamil Chade, correspondente / Genebra, O Estado de S. Paulo

02 de fevereiro de 2015 | 14h30


GENEBRA - "A Justiça no México não é para os pobres". Quem faz a afirmação é Barnabe Gaspar, pequeno agricultor mexicano que em setembro do ano passado descobriu que um de seus filhos estava entre os 43 estudantes que desapareceram na cidade de Iguala. O caso, até hoje não elucidado, causou levou milhares de pessoas às ruas para protestar no país.

Gaspar está em Genebra para denunciar sua situação na ONU e o desaparecimento de seu filho Adan Abrajan de la Cruz. A entidade realiza nesta semana uma audiência com o governo mexicano para justamente tratar do desaparecimento forçado de pessoas.

O agricultor, que não conseguia segurar suas lágrimas, não disfarçava que havia ficado nervoso diante dos peritos da ONU na sede da entidade. "Não conseguia falar", contou. Depois de controlar seus sentimentos, Gaspar fez uma denúncia: o governo mexicano não quer revelar onde estão os 43 estudantes e existiria um acordo político para impedir que a verdade seja revelada.

Entre reuniões com os peritos e debates, ele falou ao Estado sobre o caso.

Qual o objetivo do sr. ao vir à ONU?

Queremos o apoio internacional e sabemos que a ONU pode nos dar isso. Queremos ajuda para encontrar os nossos filhos. É uma dor enorme não saber o que ocorreu com eles, quatro meses depois do caso começar. Queremos que se faça justiça. Fazemos isso para evitar que, no futuro, isso ocorra com outras famílias.

O sr. está satisfeito com as respostas do governo mexicano, de que continuam na busca dos estudantes?

Eles nos dizem que estão buscando. Mas isso não é suficiente. A cada reunião que temos com eles, apenas dizem o mesmo. O governo diz que não pode fazer nada mais que isso e por isso viemos à ONU denunciar o caso. Queremos o fim desse tormento.

O governo mexicano ofereceu uma reunião com os pais dos 43 estudantes durante esta semana em Genebra. O sr. aceitará esse convite?

O governo continua nos enganando. Não confiamos mais nesse governo. Se a reunião for marcada para que eles nos deem informações, iremos. Caso contrário, não tem sentido.

Na avaliação do sr., o governo ainda tem credibilidade ao tratar desse caso?

Não confiamos mais no governo. Eles quebraram diversas promessas. Eles nos entregaram cadáveres que não eram de nossos filhos. Depois, prometeram que cada descoberta seria primeiro informado aos pais. Mas, a cada dia, eles informam primeiro a imprensa e ficamos sabendo da investigação apenas pelos jornais. Os danos emocionais são enormes.

O sr. acredita que seu filho está vivo?

Sim, ele está. Na minha opinião, o governo já sabe onde eles estão. Mas não podem dizer porque existe um acordo político para não punir ninguém e um esforço enorme para abafar a verdade. A Justiça no México não é para os pobres.

Para o sr., encontrar o seu filho é o único objetivo hoje?

Não. Quero que os responsáveis sejam punidos. Foram os policiais municipais que os levaram. Havia um posto do Exército a 300 metros de distância do local onde tudo ocorreu. Os militares também precisam ser investigados. Ninguém viu nada? Eles precisam explicar isso. O problema é que, hoje, o caso não é da Justiça. É um caso político e que envolve muitos interesses.

O que o sr. acha que levou ao desaparecimento dos estudantes?

O fato de eles questionarem e lutarem contra os poderosos. Por isso foram atacados. Essa é o México de hoje.

Como tem sido a vida do sr. desde setembro?

Um pesadelo. Deixei a terra, não plantei milho e perdi a colheita. Fiquei totalmente implicado em descobrir a verdade. Mas vou lutar até encontrá-lo.

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