REUTERS/Maxim Shemetov
REUTERS/Maxim Shemetov

Justiça russa inicia julgamento sobre 'extremismo' de organizações de Navalni

Demanda do Ministério Público quer garantir que organizações do opositor sejam classificadas como 'extremistas'; movimento é visto como tentativa de tornar ilegal a oposição ao Kremlin

Redação, O Estado de S.Paulo

17 de maio de 2021 | 10h00

A justiça russa começa a examinar nesta segunda-feira, 17, uma demanda do Ministério Público para classificar como "extremistas" as organizações de Alexei Navalni. O processo, de acordo com apoiadores do opositor de Vladimir Putin, busca tornar o movimento de oposição ilegal no país.

Esta primeira audiência, que será realizada a portas fechadas no tribunal municipal de Moscou, ocorre um dia antes da primeira leitura na Duma, câmara baixa do Parlamento, de um projeto de lei para proibir pessoas envolvidas em organizações classificadas como "extremistas" serem deputados eleitos.

A promotoria russa solicitou em meados de abril a classificação de várias organizações ligadas a Navalni como "extremistas", que podem acarretar pesadas penas de prisão para colaboradores e apoiadores do oponente.

Navalni, que fez uma greve de fome de três semanas em abril, está preso desde janeiro.

A ação tem como alvo o Fundo Anticorrupção (FBK) liderado pelo opositor, conhecido por suas investigações sobre o estilo de vida e denúncias de peculato das elites russas, e escritórios regionais ligados a Navalni, que tratam em particular de organizar manifestações de apoio ou atividades pré-eleitorais.

A promotoria acusa as organizações Navalni de "criar as condições desestabilizadoras da situação social e sociopolítica" da Rússia, sob "cobertura de slogans liberais".

Destruição mútua

"A oposição será destruída", garante à AFP o analista independente Abbas Galliamov, mas adverte que "ao destruir a oposição, eles (as autoridades) destruirão sua própria legitimidade".

Com a aproximação das eleições legislativas de setembro, o Kremlin busca eliminar qualquer possibilidade do movimento de Navalni, em meio ao crescente cansaço da população após duas décadas da presidência de Putin e ao agravamento da situação econômica do país causada pela pandemia do novo coronavírus.

Neste sentido, a Duma planeja examinar um projeto de lei na terça-feira, 18, que proíbe a eleição de qualquer pessoa que tenha ocupado um cargo em uma organização que tenha sido classificada como "extremista".

Proposto por um grupo de deputados governistas do partido Rússia Unida, o texto deve ser aprovado no Congresso, dominado por apoiadores de Putin, antes das eleições legislativas de setembro e será retroativo, segundo os autores.

Navalni esperava apresentar candidatos para as legislaturas de setembro ou apoiar candidatos capazes de se opor com o Kremlin. Diante da possibilidade das organizações serem consideradas extremistas, os escritórios regionais da oposição na Rússia anunciaram sua dissolução no final de abril.

"Medo terrível"

A rede de escritórios foi adicionada no final de abril à lista de organizações "extremistas e terroristas" do serviço de inteligência financeira russo, que inclui os grupos jihadistas Al Qaeda e o Estado Islâmico.

Aos olhos de Liubov Sobol, um dos principais aliados de Navalni, o surgimento de tal projeto significa que o partido no poder tem "um medo terrível da concorrência honesta".

"Parece que a propaganda e as mentiras não podem mais ajudar os favoritos dessas pessoas", disse Sobol, de 33 anos, que já havia anunciado sua intenção de comparecer às legislaturas do outono, no início de maio no Facebook.

O Fundo Anticorrupção de Navalni acusou o presidente Putin em janeiro de ser o beneficiário de um suntuoso "palácio" nas margens do Mar Negro. O vídeo foi visto 116 milhões de vezes no YouTube e forçou Putin a negá-lo pessoalmente.

As instalações das organizações Navalni e as casas de seus colaboradores foram invadidas em várias ocasiões nos últimos anos, no que é considerado uma tentativa de intimidação destinada a silenciá-los.

Tudo o que sabemos sobre:
RússiaAlexei Navalny

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.