REUTERS/Charles Mostoller
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Turquia pede condenação de religioso a 2 penas perpétuas

Fethullah Gulen, que vive nos EUA, é acusado de 'tentar destruir a ordem constitucional pela força' e 'de formar e conduzir grupos terroristas armados'

Andrei Netto CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S. Paulo

16 Agosto 2016 | 16h31

O Ministério Público da Turquia anunciou nesta terça-feira, 16, que pedirá à Justiça a condenação do ex-imã Fethullah Gulen, adversário político do presidente Recep Tayyip Erdogan, a duas penas de prisão perpétua, além de outra de 1.900 anos de prisão pela fracassada tentativa de golpe em 15 de julho. 

A acusação dos magistrados foi feita em meio a uma onda de repressão no país e busca reforçar os argumentos do chefe de Estado – que pressiona EUA e Europa a extraditarem Gulen, exilado em território americano, e seus principais seguidores, refugiados em solo europeu. 

Gulen, 75 anos, é um teólogo muçulmano e líder do movimento islamista Hizmet – “Serviço”, em turco –, além de ter sido por décadas aliado de Erdogan. Exilado na Pensilvânia desde 1999, Gulen foi acusado por Erdogan de estar por trás dos levantes populares contra o autoritarismo em 2013, das denúncias de corrupção que abalaram o poder em 2014 e da tentativa de golpe conduzida por setores minoritários das Forças Armadas em julho. 

O golpe frustrado foi a gota d’água para Erdogan, que pediu a Washington que extradite o religioso para a Turquia, onde ele seria julgado por alta traição, entre outros crimes. Sob o argumento de reprimir os golpistas, o governo já demitiu mais de 35 mil pessoas da administração pública e de empresas privadas desde a tentativa de golpe, e mais de 20 mil estão presas – incluindo professores e jornalistas – na ofensiva repressiva do regime. 

O jornal Zaman, acusado de ser o braço midiático do “grupo terrorista de Fethullah Gulen”, foi confiscado. 

Hoje, o Ministério Público acusou o teólogo de “tentar destruir a ordem constitucional pela força” e “formar e dirigir um grupo terrorista armado”, segundo a peça de acusação divulgada pela agência estatal Anatolia. Pelos dois crimes, os magistrados pedem prisões perpétuas, assim como a pena adicional de 1.900 anos.

Outra acusação que pesa contra Gulen é a de que ele teria “infiltrado” seguidores em instituições públicas, até mesmo nos serviços secretos. Essa organização seria financiada por fundações, estabelecimentos de ensino privados, empresas e veículos de informação, de acordo com os procuradores, que acusam Gulen de manter fundos em bancos da Alemanha, dos Emirados Árabes Unidos, da Tunísia, do Marrocos, da Jordânia e até da África do Sul.

A investigação teve início no ano passado e já envolve 111 acusados – dos quais 13 estão presos em regime fechado –, cujas penas solicitadas pelo MP variam de 2 anos de prisão à pena perpétua. Para enfrentar a “ameaça” representada por Gulen, Erdogan deseja aprovar no Parlamento o retorno da pena de morte, abolida em 2004.

Hoje, o primeiro-ministro da Turquia, Binali Yildirim, fez um pronunciamento ao Parlamento no qual insistiu na extradição de Gulen – o que até agora foi rejeitado pelo governo de Barack Obama –, garantindo-lhe um processo justo e imparcial. “Gulen retornará à Turquia e prestará contas”, afirmou Yildirim.

Mas, um dia antes de o governo prometer um processo justo, 239 membros de tribunais de Istambul, incluindo procuradores de Justiça, foram presos na segunda-feira, acusados de colaborar com Gulen. Criticado pelo Ocidente pela repressão, Erdogan lembrou hoje que a Turquia está em estado de emergência desde a tentativa de golpe e argumentou: “Todas as detenções ocorrem no respeito das leis”. 

 

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