Eduardo Gayer/Estadão
Eduardo Gayer/Estadão

Juventude ucraniana se enxerga como parte da Europa e teme avanço da Rússia

Juventude sente que não tem afinidade com a mentalidade russa, crê que ela ficou parada no tempo da União Soviética

Eduardo Gayer / Enviado Especial, O Estado de S.Paulo

24 de fevereiro de 2022 | 05h00

KIEV – A poucos metros da Praça da Independência de Kiev, conhecida como Maidan, o hasteamento de bandeiras da Ucrânia e da União Europeia lado a lado expõe o sentimento de parcela considerável dos cidadãos da capital – sobretudo dos mais jovens, nascidos após a dissolução da União Soviética (1991). Em meio à ameaça de invasão russa, as ruas de Kiev atestam a preferência da região por uma aproximação com a Europa, não com Moscou, como desejam os russos e separatistas do leste do país.

Entre os ucranianos com idades entre 18 e 29 anos, 75% deles votariam em um referendo a favor da adesão à União Europeia, indicou uma pesquisa do Razumkov Center, realizada há um ano. Entre os maiores de 60 anos, o apoio era de 44% da população.

“Estou mais próxima da mentalidade europeia. A mentalidade da Rússia está parada na União Soviética”, disse a estudante Tanya Lynnik, de 17 anos, enquanto aguardava um ônibus para voltar para casa após a escola. “Eu prefiro que a Ucrânia se vire para a Europa. Temos mais proximidade do que com a Rússia”, acrescentou.

Segundo Tanya, sua família e amigos têm a mesma percepção. “Todos odeiam Putin e sua política. Minha família quer ser europeia”, resume a estudante, que já não aguenta mais a escalada de tensões com a Rússia. “Só espero que tudo isso termine logo e bem.”

O distanciamento em relação a Moscou ainda é permeado por traumas. “Os russos mataram muitos dos meus amigos. Tivemos problemas com eles nesses anos. Não há maneira de ser mais próximos deles do que dos europeus ocidentais”, disse à reportagem o economista Ighor Ponyomarenko, de 28 anos, em referência ao conflito armado com a Rússia que se estende desde 2014, após a anexação da Crimeia.

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A espécie de “briga de identidades” na Ucrânia está no cerne dos desentendimentos com a Rússia. Os dois países têm histórias entrelaçadas: Kiev foi a primeira capital do Império Russo e a Ucrânia, uma república da extinta União Soviética. Pelas raízes conjuntas e ainda de olho em seus planos políticos, o presidente Vladimir Putin tenta ampliar a influência histórica sobre o país vizinho, “tampão” entre a Rússia e o Ocidente, liderado pelos americanos.

Desde o fim da União Soviética, a Ucrânia tem buscado fortalecer suas relações com a União Europeia e almeja entrar na Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). Comandante do Pacto de Varsóvia, a antítese da Otan, no período da Guerra Fria, a Rússia diz que não aceitará a adesão dos ucranianos à aliança atlântica.

Para a professora de francês Larysa Myronenko, de 68 anos, a ofensiva de Moscou para impedir a entrada da Ucrânia na Otan só reforça a necessidade de o país fazer parte do grupo de aliados. “Os primeiros defensores somos nós, os ucranianos. Mas hoje, com a globalização, nós temos direito de pensar em outras organizações internacionais que possam nos ajudar. E essa organização é a Otan”, avaliou. Antes de migrar para a sala de aula, ela foi diplomata e chegou a ser consulesa da Ucrânia em Curitiba de setembro de 2008 a dezembro de 2014. 

Os alunos de Larysa têm entre 15 e 17 anos e, segundo a ex-diplomata, a mesma mentalidade de Tanya. “Temos uma nova geração que entende toda essa política russa, agressiva, que está contra nós, ucranianos. É uma política imperial e no século 21 não a aceitamos”, afirmou. “A Ucrânia compartilha valores da Europa ocidental. Entrar na UE é compartilhar valores como democracia, direitos humanos. A nova geração vai por esse caminho e não tem a mentalidade soviética. Putin adota uma política imperial . Ele quer é a reestruturação da União Soviética.” 

Colega de trabalho de Ponyomarenko, o economista Andrew, de 25 anos, vê a adesão à Otan com mais ceticismo. “Difícil dizer se seria realmente bom para a Ucrânia. Pode nos trazer problemas, como já está trazendo. O governo deveria realizar de vez um referendo sobre isso para saber o que a população deseja”, afirma. O jovem não quis ser fotografado, filmado ou revelar o sobrenome, mas alegou medo de represálias da empresa por comentar um assunto tão delicado.

 

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