Kadafi ameaça civis com ataque ''sem misericórdia''

Líder líbio diz que seus soldados entrarão de casa em casa em Benghazi para ver se a cidade é de ''traidores ou heróis''

Lourival Sant'Anna, O Estado de S.Paulo

18 de março de 2011 | 00h00

Enquanto suas tropas avançavam ontem em direção a Benghazi, o principal reduto da oposição, e o Conselho de Segurança da ONU aprovava a imposição de uma zona de exclusão aérea e outras medidas para conter sua ofensiva, o ditador Muamar Kadafi fez à tarde uma aterrorizante advertência aos moradores da cidade, e ameaçou também a comunidade internacional com a interrupção do tráfego no Mar Mediterrâneo.

"Não haverá misericórdia para aqueles que não se renderem", avisou Kadafi, em pronunciamento de rádio e televisão.

"A questão está decidida, estamos chegando", afirmou Kadafi, cujas tropas foram vistas por moradores ontem à noite a 130 km de Benghazi, depois de vencerem uma sangrenta batalha pelo controle de Ajdabiya, situada 160 km a oeste.

"O povo verá amanhã (hoje) se a cidade é de traidores ou heróis", continuou o ditador. "Não me traiam, meus amados benghazis."

A cidade, de 1 milhão de habitantes, sempre foi o principal reduto de dissidência contra o regime de Kadafi. Como resultado, seus moradores queixam-se de ser prejudicados pelo governo, com precária infraestrutura e salários mais baixos.

Kadafi disse que haverá buscas de casa em casa na cidade. "Aqueles que não tiverem armas não têm o que temer." Muitos moradores de Benghazi, e de outras cidades da região leste, controlada pela oposição desde o levante iniciado há um mês, têm fuzis em casa, retirados dos quartéis das forças leais ao regime, que debandaram nos confrontos com manifestantes civis apoiados por militares desertores.

Uma faixa de 700 km a leste de Benghazi, até a fronteira com o Egito, percorrida pelo Estado na quarta-feira, ainda é firmemente controlada pelos rebeldes líbios.

Mais cedo, a TV líbia havia exibido outra declaração de Kadafi, destinada a desencorajar a aprovação da zona de exclusão aérea e outras iniciativas de apoio aos rebeldes: "Qualquer ação militar estrangeira contra a Líbia exporá todo o tráfego aéreo e marítimo no Mar Mediterrâneo ao perigo e instalações civis e militares se tornarão alvos do contra-ataque líbio. A bacia do Mediterrâneo enfrentará perigo não só no curto, mas no longo prazos", acrescentou, sem explicar a natureza da ameaça.

Kadafi, que se reabilitou nos últimos anos perante a comunidade internacional renunciando ao terrorismo e opondo-se à Al-Qaeda, afirmou no fim da semana passada que apoiaria o grupo extremista se a comunidade internacional interviesse no conflito líbio.

O ex-ministro da Justiça Mustafa Abdel Jalil, que aderiu ao levante desde o início, tornando-se um dos líderes da oposição, disse que o ditador ordenou pessoalmente o atentado contra o avião da Pan Am sobre a cidade escocesa de Lockerbie, em 1988. Como parte de sua reabilitação, o ditador indenizou as famílias das vítimas do atentado.

De manhã, os rebeldes líbios tinham conseguido alguns ganhos no terreno. Seus aviões - obtidos no fim de semana, com a deserção de oficiais - haviam fustigado forças leais a Kadafi no flanco oeste de Ajdabiya.

"Zona de exclusão aérea não nos interessa mais", disse ao Estado, sorrindo, um morador de Benghazi. "Agora temos aviões." Ao mesmo tempo, suas baterias antiaéreas conseguiram derrubar pelo menos dois aviões do regime de Kadafi.

No entanto, no decorrer do dia, as tropas de Kadafi voltaram a cercar Ajdabiya, cidade de 150 mil habitantes duramente castigada pelos bombardeios aéreos e de foguetes. A partir daí, começaram a avançar em direção à cidade de Benghazi. Médicos em Ajdabiya disseram que 2 pessoas foram mortas ontem, além das 26 que morreram nos dias anteriores.

PONTOS-CHAVE

Protestos

Manifestantes líbios iniciam marchas contra o regime de Kadafi em 15 de fevereiro, inspirados nos levantes na Tunísia e no Egito, que levaram à queda de seus presidentes

Ofensiva

Rebeldes chegaram a controlar todas as cidades que abrigam instalações petrolíferas, mas acabaram retrocedendo ante a ofensiva das forças leais a Kadafi

Reduto rebelde

Opositores ainda mantêm o controle da cidade de Benghazi, a segunda maior cidade da Líbia, e têm armas e equipamentos militares tomados dos quartéis após a deserção de vários militares

Contra-ataque

Com o apoio de mercenários, tanques e aviões, ditador líbio vem recuperando o controle de áreas antes ocupadas pelos rebeldes e agora ameaça com um golpe final contra os opositores

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