Kadafi deixa pouco para guiar a Líbia em sua ausência

A força repressora de Muamar Kadafi sobre a Líbia parece ter chegado ao fim depois de 42 anos, mesmo que seu paradeiro ainda seja desconhecido. Mas com seus incontáveis e extravagantes decretos e os expurgos violentos, ele deixou profundas cicatrizes em cada aspecto da vida líbia.

Neil Macfarquhar/NYT, O Estado de S.Paulo

26 de agosto de 2011 | 00h00

No decorrer dos anos, a "revolução permanente" que, segundo ele, substituiria o capitalismo e o socialismo, também acabou com cada instituição que pudesse contestar seu poder - ou guiar o país num momento em que ele desaparecesse. Mas, no momento em que ele sai de cena, a Líbia está sem um parlamento, não possui um comando militar unificado, ou partidos políticos e sindicatos, não existe uma sociedade civil, tampouco organizações não governamentais. Seus ministérios eram um vazio, com a notável exceção da empresa estatal de petróleo.

Kadafi aferrou-se ao poder e recusou-se a aceitar a rejeição expressada por seu povo. Mas o país de 6 milhões de pessoas e enormes recursos do petróleo gradativamente se desintegrou. Para garantir seu papel excepcional, Kadafi há muito tempo usava da violência, dentro e fora do país. Financiou e armou uma série de organizações violentas e seu governo esteve ligado a ataques terroristas. No final dos anos 70 e início dos 80, eliminou até mesmo críticos moderados, por meio de julgamentos e execuções em público.

A Líbia era um país desesperadamente pobre, vivendo dos magros recursos da exportação de sucata que foi deixada das grandes batalhas na 2.ª Guerra, até descobrir o petróleo, em 1959. Mas, dez anos depois, poucos líbios tinham se beneficiado dessa riqueza. O golpe de 1969 mudou isso. No início de seu governo, Kadafi ofereceu uma relativa prosperidade aos líbios.

As mudanças bruscas na política e a personalidade de Kadafi mantiveram os líbios em completo desequilíbrio durante grande parte de seu governo. Para consolidar seu poder, ele eliminou ou isolou todos os outros 11 membros do conselho revolucionário original. Greves ou notícias não autorizadas resultavam em penas de prisão, e a atividade política ilegal era punida com a morte. Livros ocidentais foram queimados e a empresa privada foi banida.

O financiamento de Kadafi a organizações terroristas o colocou numa rota de colisão com o Ocidente. Em 1988, no ato terrorista mais mortífero ligado à Líbia, 266 pessoas morreram quando um avião da Pan Am explodiu sobre a cidade escocesa de Lockerbie. Kadafi tornou-se um pária e a Líbia foi alvo de duras sanções. Em 1999, a Líbia finalmente entregou os dois suspeitos de Lockerbie para serem julgados em Haia. As sanções internacionais contra o país foram suspensas em 2003 após ele concordar em pagar US$ 2,7 bilhões às famílias das vítimas.

Depois da invasão do Iraque, em 2003, Kadafi anunciou que a Líbia estava renunciando a adquirir armas de destruição em massa.

Agora, depois de meses de combates inconclusivos, o assalto desta semana a Trípoli finalmente afastou Kadafi do poder. Mas o futuro da Líbia sem Kadafi parece tão instável como seu passado. Ainda não há um plano definido de sucessão política ou para manter a segurança no país. A prolongada tentativa de Kadafi de eliminar o governo deixou a Líbia em frangalhos, com uma infraestrutura dilapidada, que desmente sua riqueza em petróleo. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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