GIANLUIGI GUERCIA/AFP
GIANLUIGI GUERCIA/AFP

Kadafi desafia pressão externa e tenta retomar controle sobre área de Trípoli

Ganha força nos EUA e na ONU debate por sanções internacionais contra bens e viagens da cúpula do regime líbio para evitar que massacres continuem; ditador discursa para milhares na capital e ameaça abrir arsenais para quem quiser defender seu governo

REUTERS e EFE, O Estado de S.Paulo

26 de fevereiro de 2011 | 00h00

Prestes a tornar-se alvo de sanções unilaterais dos EUA e multilaterais da ONU, o ditador Muamar Kadafi lançou ontem uma violenta ofensiva para derrubar barricadas que forças opositoras montaram na cidade de Zawiyah, no leste da Líbia - região que é o principal bastião do regime líbio. Washington indicou que congelará bens e proibirá viagens do clã Kadafi, enquanto a ONU debate a suspensão da Líbia de parte da organização.

Ontem, em Trípoli, foi a vez da base aérea de Mutiqa - maior instalação militar da capital - aderir à revolta popular, informou a rede de TV Al-Jazira. Kadafi discursou diante de milhares de simpatizantes do regime na Praça Verde, centro de Trípoli, prometendo "esmagar qualquer inimigo". Mas relatos indicam que o ditador que aterrorizou a Líbia por mais de 41 anos está perdendo controle sobre a cidade.

Na primeira iniciativa concreta para tentar obter o apoio dos seis milhões de líbios, o governo anunciou na TV estatal um aumento de salários e de subsídios alimentares, além de um bônus especial para todas as famílias.

"Vamos lutar se eles quiserem", disse Kadafi, um dia depois de confrontos entre forças fiéis ao seu regime e rebeldes tomarem conta da capital. A oposição diz que alguns bairros de Trípoli já estão sob seu controle, a exemplo do que acontece com várias outras cidades da Líbia e até mesmo com poços petrolíferos estratégicos.

"Preparem-se para lutar pela Líbia, preparem-se para lutar por dignidade, preparem-se para lutar por petróleo", disse Kadafi, ameaçando abrir os arsenais das Forças Armadas para qualquer pessoa que estiver ao lado do governo. "Podemos esmagar qualquer inimigo. Podemos esmagá-los com a vontade do povo", gritando de punhos cerrados.

Moradores disseram que o poder de Kadafi aparentemente se restringe a somente alguns bairros da capital. "Acho que Trípoli está se rebelando", disse um morador, no centro da cidade. "Quando você vai à Praça Verde, encontra ela cheia de seguidores de Kadafi. Em outras áreas, (os oposicionistas) saíram após as preces de sexta-feira e estão fazendo demonstrações contra o regime."

Segundo relatos, forças governistas começaram a abrir fogo contra centenas de pessoas no bairro de Janzour, na zona oeste da capital. A TV Al-Jazira noticiou que duas pessoas foram mortas e várias ficaram feridas pelas forças de segurança em confrontos em vários bairros. Outro canal, a Al-Arabiya, disse que sete pessoas morreram.

"Novo Ceausescu". Os rebeldes controlam algumas estradas que dão acesso à capital, permitindo que moradores de locais próximos cheguem a Trípoli. A informação é de um líbio que está na Europa e fez o relato após manter contato com parentes que vivem na capital.

"Eles vão tentar marchar até o palácio de Kadafi. Acho que pode ser um cenário Ceausescu", disse a fonte, referindo-se ao ditador romeno Nicolae Ceausescu, executado juntamente com sua mulher pelo Exército depois de um julgamento sumário em dezembro de 1989.

Um ex-aliado de Kadafi previu que o ditador vai cair "como Hitler" na Segunda Guerra: sem se render.

Misurata, terceira maior cidade do país, a 200 quilômetros a leste de Trípoli, também teria caído em mãos dos rebeldes.

Mas Saif Kadafi, filho do ditador, disse que o governo controla o oeste, o sul e o centro do país, e garantiu que sua família não tem intenção de partir. "Temos planos A, B e C. O plano A é viver e morrer na Líbia; o plano B é viver e morrer na Líbia; o plano C é viver e morrer na Líbia", disse ele à CNN da Turquia.

Em outro sinal de desmoronamento do governo, o procurador-geral Abdul-Rahman al-Abbar renunciou, seguindo o exemplo de outros membros do regime, e disse à TV Al-Arabiya que aderiu à oposição.

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