Bob Strong/Reuters
Bob Strong/Reuters

Kadafi desaparece e rebeldes mantém luta para tomar o poder na Líbia

Forças do ditador resistem em alguns pontos de Trípoli, incluindo o palácio do governo - Brasil aguarda Liga Árabe para reconhecer poder de insurgentes - Não há consenso sobre quem deve liderar o país - Quase 15 mil refugiados voltam para território líbio

, O Estado de S.Paulo

23 de agosto de 2011 | 00h00

TRÍPOLI

Forças rebeldes tomaram quase todos os bairros de Trípoli, capital da Líbia e último reduto do ditador Muamar Kadafi, que comanda o país há 42 anos. No início da noite de ontem, ainda havia pequenos focos de resistência em algumas partes da cidade. O coronel Kadafi não tinha sido encontrado, mas estava evidente que o fim do regime é uma questão de tempo.

No início da noite, a Otan informou que Kadafi disparou três mísseis Scud, que saíram de Sirte, cidade natal do ditador, em direção a Misrata. Segundo a Reuters e a emissora de TV do Catar Al-Jazira, um avião da aliança atlântica teria interceptado um míssil - os outros dois teriam caído no mar.

Forças leais ao ditador concentraram esforços na defesa do complexo de Bab al-Aziziya, principal base do coronel e onde se localiza o palácio do governo. O local, uma das poucas áreas não controladas pelos rebeldes, tem sido alvo de bombardeios da Otan da apoiam o avanço dos insurgentes.

Ao contrário das previsões que antecipavam uma dura resistência e um banho de sangue, os rebeldes tomaram rapidamente os principais pontos da cidade. O governo afirmou que 1,3 mil pessoas morreram e 3 mil ficaram feridas desde sábado. De acordo com a Reuters, foram 376 mortos dos dois lados.

Em pouco tempo, milhares de pessoas apareceram na Praça Verde, símbolo do regime, para celebrar a queda da ditadura. Muitos a pé, queimando fotos de Kadafi, outros em carros e motos, buzinando freneticamente. O local foi rebatizado de Praça dos Mártires - à tarde, o Google Maps já registrava a mudança de nome.

A caçada a Kadafi e seus aliados seguiu por todo o dia. Os rebeldes anunciaram a prisão de três de seus filhos (mais informações nesta página). Quanto ao coronel, o governo americano informou que não há evidências de que ele tenha deixado Trípoli, reiterando informações divulgadas um pouco antes pelo Pentágono.

Mustafa Abdul-Jalil, líder do Conselho Nacional de Transição (CNT), reconheceu que não sabe onde está Kadafi. "Não sabemos se ele está ou não na Líbia", disse Jalil.

Soldados que mantêm sua lealdade ao ditador diziam ontem dominar cerca de 15% de Trípoli, enquanto os rebeldes garantiam ter o controle de mais de 95% da capital. Franco-atiradores colocados pelo comando militar de Kadafi em pontos estratégicos da cidade ainda ameaçavam o restabelecimento da ordem em alguns bairros.

Tiroteio intenso. Um dos locais onde havia intenso tiroteio era o Hotel Rixos, onde estão vários correspondentes internacionais. Desde domingo, o local é alvo de ataques de partidários do ditador. Segundo jornalistas, Kadafi colocou atiradores diante do prédio, que tem sido castigado por disparos de metralhadoras e foguetes.

Parte dos funcionários deixou o hotel após ameaças de oficias pró-Kadafi. Isolados, os jornalistas improvisam avisos com a palavra "imprensa" em lençóis brancos para sinalizar que estão no local e evitar um ataque.

A conquista de Trípoli só foi possível graças à intensa campanha aérea da Otan, que até o último minuto castigou as posições de Kadafi e facilitou o avanço dos revoltosos ao limpar a estrada que liga a capital a Zawiyah, permitindo a entrada de tropas rebeldes na cidade.

O presidente dos EUA, Barack Obama, prometeu apoio a uma transição "pacífica" na Líbia. Em discurso feito durante suas férias na ilha de Martha"s Vineyard, ele considerou a situação ainda "incerta" e "perigosa", mas destacou que Kadafi "está acabado".

"Há uma coisa clara: o regime de Kadafi está chegando ao fim e o futuro da Líbia está nas mãos de seu povo", disse o presidente, que elogiou a coragem do povo líbio e prometeu ajuda humanitária. / AP, NYT e REUTERS

CRONOLOGIA

Seis meses de crise líbia

16/2 a 23/2

Protestos violentos

Após as revoltas na Tunísia e no Egito, líbios vão às ruas exigir a saída do ditador Muamar Kadafi

24/2 a 6/3

Avanço rebelde

Rebeldes começam a organizar base em Benghazi, no leste do país, e obtêm controle de cidades importantes no oeste da Líbia

7/3 a 18/3

Escalada da crise

Forças de Kadafi reconquistam algumas cidades e usam ataques aéreos para controlar avanço rebelde. Nações Unidas estabelecem zona de exclusão aérea na Líbia

19/3 a 20/3

Início dos bombardeios

Ataques da coalizão começam contra alvos líbios depois de o governo de Kadafi iniciar ataque contra Benghazi, apesar de cessar-fogo

21/3 a 15/4

Avanço e recuo

Bombardeios da coalizão forçam tropas leais a Kadafi a se retirar de Benghazi. Combates continuam no restante do país e situação humana torna-se crítica

26/4 a 12/8

Impasse

Tribunal Penal Internacional pede prisão de Kadafi por crimes contra a humanidade. Ataques da Otan e combates entre rebeldes e forças leais ao ditador líbio continuam

13/8 até agora

A conquista do oeste

Após meses de pouco progresso, rebeldes avançam em cidades estratégicas, controlando o acesso à capital, Trípoli

 

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