'Kadafi era bom comparado a Assad', diz líbio

Insurgente que luta ao lado dos sírios adverte que Al-Qaeda ampliará ação na Síria se Ocidente não criar zona de exclusão

Entrevista com

LOURIVAL SANTANNA, O Estado de S.Paulo

26 de agosto de 2012 | 03h04

Há um ano, o empreiteiro Hossam Najjair contou ao Estado como foi o primeiro combatente rebelde a entrar na Praça Verde, o centro do poder de Muamar Kadafi, à frente da Brigada de Trípoli. Concluída a revolução no país de seu pai, Najjair, de 33 anos, filho de líbio com irlandesa, participa agora de uma nova guerra civil: a luta pela derrubada de Bashar Assad.

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De passagem por sua cidade, Dublin, depois de lutar dois meses no norte da Síria com a brigada Liwa al-Umma (Bandeira da Nação), Najjair conversou pelo telefone com o Estado. Na entrevista, ele disse uma frase impensável um ano atrás: "Kadafi era um homem bom comparado a esse cara (Assad)."

A Liwa al-Umma foi criada por Mahdi Harati, cunhado de Najjair que comandava a Brigada de Trípoli. Harati continua no norte da Síria. Segundo Najjair, a nova brigada já tem 6,5 mil homens. Não há alauitas - a minoria à qual pertence Assad.

Najjair, que assim como Harati tem formação liberal, admite que a organização terrorista Al-Qaeda e outros grupos insurgente sunitas estão presentes na Síria - e adverte: "Quanto mais tempo a Otan, o Ocidente e outros governos não se envolverem, se a zona de exclusão aérea não for criada rapidamente, haverá o influxo cada vez maior de quem quer que queira vir. O prolongamento da guerra na Síria causará vácuos aqui e ali para esse tipo de gente". Seguem os principais trechos da entrevista:

Estado: Estão chegando armas melhores para os insurgentes?

Hossam Najjair: Não, ainda há um grande problema com as armas. É óbvio que eles não estão recebendo as armas de que precisam.

Estado: O regime está atacando a área onde a brigada está?

Hossam Najjair: Há ataques em toda parte. Não há nenhum lugar seguro na Síria. Até os últimos quilômetros antes de chegarmos na fronteira com a Turquia, os tiros nos alcançavam. Não é brincadeira.

Estado: Além de você e de Harati, há outros estrangeiros na brigada?

Hossam Najjair: Sim. A brigada foi fundada por Harati. A equipe mais próxima de nós na Brigada de Trípoli se juntou a um grupo de combatentes sírios e estamos tentando orientá-los.

Estado: Vocês se coordenam com o Exército Sírio Livre?

Hossam Najjair: Claro, estamos no país deles, temos de tratar com eles para poder fazer as coisas.

Estado: Qual o grau de união dos combatentes sírios?

Hossam Najjair: Estão muito longe do nível de união que deveriam ter. Você não vê o sentido de comunhão que havia entre os líbios. Isso está muito destruído (na Síria). Não sei como recuperarão.

Estado: Quanto tempo você estima que será necessário para derrubar Bashar Assad?

Hossam Najjair: Depende de alguns fatores. O estabelecimento de uma zona de exclusão aérea mudaria as coisas drasticamente da noite para o dia. Também a chegada de mísseis terra-ar e equipamentos como esses, que têm sido reivindicados caso a zona de exclusão aérea não seja criada.

Estado: Há também alauitas e cristãos na brigada - ou apenas sunitas?

Hossam Najjair: Não, não pode haver alauitas na brigada. Se você leva em conta a conformação do povo sírio, é como aconteceu em outras partes do mundo, quando o povo se volta contra o opressor. Kadafi roubou a identidade dos líbios - e eles a recuperaram. É o que está acontecendo agora na Síria. A maioria finalmente percebeu: "Somos a maioria, esse é nosso país e vamos lutar contra a minoria que está nos oprimindo". Você esteve em Damasco e Deraa, você sabe dos massacres, das mutilações, das decapitações. Dos shabiha ("fantasmas", os milicianos do regime), 99% são alauitas. Eles mutilam e estupram mulheres, jogam-nas na frente dos tanques. Há decapitações em massa. Eu nunca tinha visto nada assim.

Estado: Você acha que Assad é pior que Kadafi?

Hossam Najjair: Claro que ele é pior. Olhe o que ele está fazendo. Kadafi era um homem bom comparado a esse cara. Kadafi não foi tão longe assim. Bashar tem puro ódio sectário pela população sunita.

Estado: O fundamentalismo islâmico é um fator na Síria?

Hossam Najjair: É um fato comprovado que o Irã enviou militantes xiitas para lutar ao lado dos alauitas, para manter a maioria oprimida. Foram eles que tornaram a questão sectária. Eles destruíram o país. Nada restou.

Estado: A Al-Qaeda e outros grupos sunitas radicais estão lá?

Hossam Najjair: Quanto mais tempo a Otan, o Ocidente e outros governos não se envolverem, se a zona de exclusão aérea não for criada rapidamente, haverá o influxo cada vez maior de quem quer que queira vir. O prolongamento da guerra na Síria formará vácuos aqui e ali para esse tipo de gente. Isso é o que essa demora causa. Quanto mais depressa (a comunidade internacional) agir, melhor.

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