Kadafi exaspera europeus

Paris anda recriminando a Otan. Londres também. As duas capitais acreditam que a guerra na Líbia arrefeceu. Quando ambas lançaram - com grande ostentação - sua ação sobre a Líbia, esperavam uma vitória relâmpago, uma blitzkrieg. Ocorre que a guerra não concretizou suas esperanças, agora ela se arrasta, hesita.

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

14 de abril de 2011 | 00h00

Há 15 dias, os súditos do coronel Muamar Kadafi e os insurgentes não de mexem. A coalizão formada por Paris e Londres acreditava que os exércitos do tirano se dispersariam no vento do deserto, enquanto os revolucionários colheriam, como um fruto maduro, a capital, Trípoli. Nada disso ocorreu. E hoje começamos a ouvir a palavra temida: "Impasse".

Os ocidentais irritam-se. Promovem encontros. Na terça-feira, diversos ministros se reuniram em Luxemburgo. Hoje, outros tantos se reunirão em Doha e, sexta-feira, outros mais em Berlim. Os ministros das Relações Exteriores francês, Alain Juppé, e o britânico, William Hague, trabalham sem parar. Estão furiosos com a Otan. Segundo eles, depois que a organização assumiu - atendendo às suas reivindicações - a direção das operações, a campanha contra a Líbia parece ter arrefecido.

A Otan rejeita essas críticas. Afinal, realizou 155 ataques aéreos desde o último fim de semana e destruiu 49 tanques. Se não deu continuidade às operações foi porque os homens de Kadafi se misturam aos civis, de modo que é impossível lançar bombas sem provocar enormes desgastes colaterais.

Cresce a discórdia também entre os dois promotores da coalizão - o francês Nicolas Sarkozy e o britânico David Cameron - e os países europeus. Desde o início, a guerra de Sarkozy não agradou aos outros europeus, que a consideraram mais uma dessas ações precipitadas e emotivas de que a França tanto gosta. A Espanha defende a Otan. A Itália está perplexa diante dos pedidos de intensificação das operações. A Suécia não gosta dessa guerra no deserto.

A Alemanha tem uma posição original: de início, desaprovou a excitação de Sarkozy. A chanceler Angela Merkel recusou-se a participar. Mas sua atitude chocou seus compatriotas. Agora, Berlim também se mostra extremamente interessada e cogita de se unir à coalizão, mas da forma mais branda.

Por fim, há os americanos, que entraram na estratégia proposta por Sarkozy e Cameron e se recolheram. É que já estão às voltas com algumas guerras pela democracia, que aliás não vão nada bem. Eles também teriam gostado de evitar o problema da Líbia.

Nos primeiros dias, mostraram-se ativos. Mas desde que a Otan tomou em suas mãos o controle da operação, Washington retirou-se. O Pentágono chamou de volta seus caças-bombardeiros, economizando diariamente US$ 47 milhões, e deixou que a França assumisse a metade do esforço de guerra.

O que se percebe nesse imbróglio é que os governos estão confiando mais em soluções políticas do que nas operações militares. Algumas coisas já foram acertadas, mas sem sucesso. Kadafi não se manifesta.

Quanto ao Conselho Nacional de transição, que representa na cidade de Benghazi as forças revolucionárias, até o momento não deu prova de sua eficiência nem de sua coerência. Nem de sua representatividade. E agora? / TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA

É CORRESPONDENTE EM PARIS

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