Kadafi não é Mubarak e sua queda pode levar Líbia ao caos

País não tem Constituição, partidos políticos, sindicatos ou mesmo uma organização que possa preencher o enorme vazio que será criado com a saída do ditador

GREGORY VISCUSI, O Estado de S.Paulo

27 de fevereiro de 2011 | 00h00

Muamar Kadafi pode deixar a Líbia sem um meio de se evitar um novo banho de sangue. Quando na Tunísia e no Egito, os manifestantes conseguiram a saída dos seus líderes, ambos os países tinham uma Constituição estabelecendo a transferência de poder para interinos que agora negociam um caminho para a democracia. A Líbia, onde Kadafi reina desde o golpe que destituiu a monarquia em 1969, não tem Constituição ou partidos políticos e os sindicatos estão proibidos há mais de 35 anos.

"Se Kadafi sair, um enorme vazio será criado, não apenas político, mas também social e econômico", afirmou Diederick Vandewalle, professor do Dartmouth College. "Não há nenhuma organização que possa interagir entre o governo e os manifestantes."

A Líbia, que possui uma das maiores reservas de petróleo da África, pode estar se preparando para um período mais longo e mais sangrento de revoltas do que seus vizinhos enquanto Kadafi agarra-se ao poder e não há nenhum outro líder que possa ser uma alternativa.

"Um novo mergulho no caos é uma possibilidade real", disse Ettore Greco, diretor do Instituto de Assuntos Internacionais de Roma. "O governo repressivo de Kadafi foi de uma escala totalmente diferente que o da Tunísia e do Egito." Embora Kadafi tenha criado um governo que, segundo ele, deu poder ao povo por meio dos chamados Comitês Populares líbios, o país não tem uma classe política ou um grupo de oficiais do Exército que possa assumir o poder, como no Egito.

Em 11 de fevereiro, o presidente Hosni Mubarak cedeu o poder aos militares, que suspenderam a Constituição e dissolveram o Parlamento, declarando que governarão o país por seis meses ou até a realização de eleições.

A falta de uma identidade nacional também complica as coisas. Em 1934, a Itália fundiu três províncias otomanas capturadas em 1911. O país tornou-se independente em 1951, sob o rei Idris, cujo apoio era mais forte ao norte. Kadafi destituiu Idris e assumiu o poder em 1969. "A Líbia foi uma criação artificial", disse Vandewalle. "A falta de identidade nunca foi um problema solucionado."

Líderes de mais de cem tribos poderão ser a única saída para a crise, segundo Ronald Bruce St. John, autor de três livros sobre a Líbia. "A afiliação tribal foi fundamental porque Kadafi destruiu a sociedade civil na Líbia", disse o escritor. "Se este movimento continuar ganhando velocidade e derrubar o regime, as tribos tentarão criar um novo sistema político".

Mas tribos não serão substituto de um processo político, disse Shashank Joshi, membro associado do Royal United Services Institute, de Londres. "É difícil haver um processo democrático de fato se as pessoas votam por razões ligadas à tribo, como já vimos em alguns países africanos", afirmou.

A fundação Freedom House, de Washington, que faz levantamentos dos direitos em todo o mundo, anualmente divide os 194 países em 13 rankings com base em liberdades econômicas, da mídia e políticas. Nos rankings de 2010, a Líbia ocupou o último lugar do grupo de nove países, juntamente com Coreia do Norte e Mianmar. Tunísia e Irã ficaram dois lugares acima da Líbia; Egito, Iêmen e Argélia três abaixo; e o Marrocos ocupou o sexto lugar.

"O poder, teoricamente, tem como base um sistema de comitês populares e o Congresso Geral do Povo, eleito indiretamente, mas na prática são estruturas manipuladas de modo a assegurar o domínio contínuo de Kadafi, observou a Freedom House no seu último relatório anual. "Organizar ou reunir algumas pessoas, qualquer coisa que possa parecer um partido político, é motivo de punição, e as pessoas podem ser condenadas a anos de prisão e até à morte. Não há uma imprensa e sindicatos independentes."

A atrofiada sociedade civil da Líbia iguala-se à economia subdesenvolvida. Embora as sanções impostas após o atentado de Lockerbie em 1988 tenham sido suspensas em 2003, o país ainda é muito dependente da energia, segundo o FMI.

A Líbia é "um dos países produtores de petróleo menos diversificados no Oriente Médio", segundo relatório de uma instituição de crédito de Washington. O petróleo representa 90% das receitas do governo e 95% das suas exportações.

"Trata-se de um regime invasivo e onipresente que não deixou nenhum espaço para algum tipo de sociedade civil como aquelas que tomaram as rédeas na Tunísia e Egito, disse Greco. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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