Alaguri/AP
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Kadafi ordena bombardeio aéreo de manifestações, dizem testemunhas

As manifestações na Líbia contra os 42 anos de ditadura do coronel Muamar Kadafi enfrentaram ontem o mais sangrento dia de repressão. Numa jornada caótica, segundo testemunhas, o governo ordenou à Aeronáutica que bombardeasse a multidão nas ruas da capital, Trípoli.

Andrei Netto, O Estado de S.Paulo

22 de fevereiro de 2011 | 00h00

Um ministro pediu demissão, embaixadores abandonaram postos e dois pilotos da Força Aérea desertaram, refugiando-se em Malta (mais informações na página 12), um grupo do Exército divulgou um comunicado pedindo aos companheiros que se juntassem ao povo, segundo a TV Al-Jazira. Organizações internacionais falam em mais de 300 mortos.

A crise política na Líbia intensificou-se nas últimas 48 horas, quando as cidades de Benghazi, epicentro das manifestações, Tobruk, Misrata, Lhoms, Tarhounah, Zeiten, Zaouia e Zouara teriam passado às mãos dos revoltosos. Segundo a Federação Internacional das Ligas de Direitos Humanos (FIDH), de Paris, entre 300 e 400 pessoas já teriam morrido nos conflitos com as forças de ordem - 160 dos quais só ontem, segundo a rede de TV Al-Jazira. No início da noite, relatos vindos de Trípoli davam conta dos ataques aéreos na capital. "Meus pais me disseram que as Forças Armadas estão bombardeando os manifestantes. Pode haver milhares de mortos", afirmou ao Estado Mohamed Rifaat, líbio que vive em Paris e passou o dia em contatos com os pais em Trípoli. "É um crime contra a humanidade que está em curso", afirmou Ismail Sakal, estudante líbio também em Paris. Na França e na Suíça, organizações de defesa dos direitos civis como a FIDH e o Comitê Líbio pela Verdade e a Justiça anunciaram terem ouvido testemunhos semelhantes vindos de Trípoli.

Ao longo do dia, os rumores sobre a partida de Kadafi se multiplicaram. Mas à noite a TV estatal exibiu um vídeo de 30 segundo de Kadafi, dizendo que está em Trípoli e não na Venezuela, "ao contrário do que dizem as emissoras dos cães".

As instituições do Estado líbio estariam balançando. Ataques contra prédios públicos, como o Congresso Geral do Povo - o Parlamento líbio - e o Ministério da Justiça, se multiplicaram. Postos de polícia, comitês governamentais e emissoras de TV e rádio estatais foram destruídas. Imagens feitas por agências de notícias mostraram as portas da prisão de Al-Jadid, em Trípoli, abertas após a deserção dos carcereiros e a fuga dos prisioneiros. Além da força bruta, o governo cortou os serviços de internet, telefonia celular e luz, para eliminar a comunicação entre os grupos de manifestantes.

Além da revolta popular, chefes tribais que perderam o poder sob o regime de Kadafi estariam se unindo às manifestações. "Os chefes tribais podem ter um impacto importante neste movimento e até mesmo fazer balançar o regime. Eles legitimam a contestação e alargam o movimento de revolta", afirmou o cientista político Hasni Abidi, diretor do centro de Estudos e de Pesquisa do Mundo Árabe e Mediterrâneo, de Genebra. Segundo Abidi, a maior tribo líbia, Al-Warfallah, teria aderido aos protestos.

A espiral de violência teria aumentado após o pronunciamento do filho de Kadafi, Saif al-Islam Kadafi, que ameaçou os oposicionistas em rede de TV no domingo, prometendo promover uma guerra civil, se necessário, para manter a estabilidade do regime. Em protesto, o ministro da Justiça, Mustafa Mohamed Aboud Al-Djeleil renunciou, reclamando do uso excessivo da força contra a população.

A secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, pediu ontem o "fim do derramanto de sangue inaceitável" na Líbia.

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