Kadafi reage e cresce violência na Líbia

Mais de 35 manifestantes inspirados na revolução egípcia são mortos depois de regime abrir fogo contra protesto pacífico na 2ª maior cidade líbia; segundo testemunhas, opositores enforcaram 2 policiais e obrigaram Exército a se retirar de cidade no norte

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19 de fevereiro de 2011 | 00h37

Novo alvo da onda de protestos que já derrubou governos na Tunísia e Egito, a Líbia suspendeu ontem seu Parlamento por tempo indeterminado e prometeu reformular o gabinete de Muamar Kadafi - no poder desde 1969. O anúncio foi feito no site Quryna, ligado a um dos filhos de Kadafi. Segundo fontes médicas, mais de 35 opositores morreram ontem em confrontos com forças do regime, elevando a 55 o número de mortos desde o início das manifestações.

Ontem foi o quarto dia de protestos pelo fim do regime de Kadafi e a adoção de reformas democráticas na Líbia. Os distúrbios concentram-se na parte leste do país, sobretudo em Benghazi, a segunda maior cidade líbia - onde historicamente a influência do ditador é menor -, mas há relatos de manifestações menores na região noroeste, perto da Tunísia.

De acordo com o Quryna, soldados estão usando munição real para dispersar manifestações pacíficas. Manifestantes teriam ateado fogo em delegacias e outros prédios públicos de Benghazi. Cerca de mil detentos da maior prisão da cidade, Kuwafiyah, teriam escapado.

Mas, segundo testemunhas, o pior choque ocorreu durante o funeral de 15 manifestantes mortos nos protestos da véspera. O cortejo teria se convertido em mais um ato antigoverno e as forças de segurança abriram fogo para dispersar a multidão.

Moradores de Benghazi disseram que Saadi Kadafi, filho do ditador e ex-jogador profissional de futebol na Itália, havia assumido o controle das forças de segurança do regime na cidade.

Tropas do Exército líbio foram obrigadas a se retirar de Al-Bayda, terceira maior cidade do país, informou o jornal britânico The Guardian citando fontes locais. A situação teria ficado insustentável para as forças do regime depois que manifestantes ganharam a adesão de policiais desertores. Temendo a chegada de reforços vindos de Trípoli, os opositores teriam fechado o aeroporto.

Policiais enforcados. Segundo o jornal Oea, também ligado à família Kadafi, dois policiais leais ao governo teriam sido enforcados em Al-Bayda. O mesmo diário afirma que 27 pessoas morreram nos últimos quatro dias por causa da violência.

Ocupante da presidência rotativa da Liga Árabe, a Líbia anunciou ontem o cancelamento do próximo encontro do bloco, previsto para março, no Iraque. O motivo seria as "circunstâncias em que se encontra o mundo árabe". Mas a secretaria-geral da Liga Árabe não confirmou a informação.

O governo líbio culpou ontem "países imperialistas e sionistas" pela onda de protesto no Oriente Médio. Kadafi participou de um comício nas ruas Trípoli, onde aparentemente não houve protestos de opositores.

"A resposta do povo e das forças revolucionárias a qualquer aventura por parte desses pequenos grupos será dura e violenta", anunciou por meio de um comunicado o Comitê Revolucionário, instituição central do regime de Kadafi. / NYT, REUTERS e AP

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