Imagem Gilles Lapouge
Colunista
Gilles Lapouge
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Kadafi revela pactos secretos

Ao que tudo indica, a Líbia se diverte em criar embaraços para as potências européias que se mostram flexíveis e indulgentes com ela. Por exemplo, a libertação, no fim de julho, das cinco enfermeiras búlgaras e do médico palestino permitiu que Muamar Kadafi desse alguns golpes baixos nos dois países europeus mais implicados no caso: a França e a Grã-Bretanha.Para a França, não custa lembrar como o presidente Nicolas Sarkozy encenou, com pompa e circunstância, a libertação das enfermeiras e do médico que foram torturados e ficaram oito anos presos nos calabouços líbios. Perguntou-se então que contrapartida a França havia dado a Kadafi para encerrar esse calvário. "Nenhuma contrapartida", replicou oficialmente o Palácio do Eliseu. Ora, nesse mesmo dia, chegava de Trípoli a notícia: "A Líbia acaba de assinar dois enormes contratos com indústrias francesas para fornecimento de materiais militares." Com Londres, a mesma coisa. Em junho, Tony Blair passou por Trípoli. Ele aproveitou a visita para evocar a detenção das enfermeiras búlgaras e do médico palestino. Quando eles foram libertados, todo mundo imaginou então o que os ingleses teriam oferecido em contrapartida. Londres desmentiu veementemente: "Não. Londres não ofereceu nada em troca dessa libertação." Mas também aí Trípoli recolocou as coisas nos eixos.O próprio filho de Kadafi, Seif al-Islam, declarou ao jornal Le Monde que Londres concordou em soltar um agente líbio, Abdel Basset Ali al-Megrahi, que havia sido condenado à prisão perpétua na Escócia, em 2001, por seu envolvimento na explosão de um Jumbo da Pan Am sobre Lockerbie em 1988 - atentado que deixou 270 mortos. O filho de Kadafi deu a entender que a extradição desse líbio seria iminente e constituiria o preço a ser pago por Londres pela libertação das enfermeiras e do médico.Logo depois, saiu um desmentido do Ministério do Exterior de Londres: "O caso de Abdel Basset Ali al-Megrahi nunca foi discutido por Londres." E isso por uma razão bem simples: "Londres não pode interferir no caso de Al-Megrahi porque a Justiça, na Escócia, faz parte das prerrogativas do governo escocês, nos termos da regionalização de 1999."Persistiram, contudo, algumas imprecisões tanto da parte de Londres como de Paris. De fato, ficou-se sabendo ontem que a Comissão de Revisão Escocesa de Casos Criminais concluiu, depois de três anos de investigação, que o líbio Al-Megrahi pode ter sido vítima de um erro judiciário. Estranha coincidência! Moral da história: embaixadores do mundo inteiro, presidentes, primeiros-ministros e enviados, reflitam duas vezes antes de iniciar negociações secretas com o coronel Kadafi: mal tiverem virado as costas, o dirigente líbio revelará todas as cláusulas sigilosas da negociação secreta.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.