Kadafi só vê paz em Estado binacional

Líbio se junta a intelectuais palestinos e israelenses que apoiam criação de país englobando Israel, Cisjordânia e Gaza

Gustavo Chacra, JERUSALÉM, O Estadao de S.Paulo

23 de janeiro de 2009 | 00h00

Uma proposta polêmica para solucionar o conflito israelense-palestino - a criação de um Estado binacional que englobaria Israel, Cisjordânia e Faixa de Gaza, que formariam um único país - ganhou o apoio do ditador líbio Muamar Kadafi. Em artigo publicado ontem no jornal The New York Times, Kadafi diz que a proposta "é a única opção de se obter uma paz duradoura" entre israelenses e palestinos (leia a íntegra nesta página). A defesa de um Estado binacional se iniciou mesmo antes da partilha promovida pela ONU em 1947 e até hoje tem adeptos entre palestinos e israelenses, apesar de a maioria da população dos dois lados e os principais líderes políticos serem contra. O modelo tampouco integrou os planos de paz desde os acordos de Oslo.Os primeiros a defendê-lo foram os intelectuais judeus Martin Buber e Judah Magness, nos anos 1930. A Organização para a Libertação da Palestina (OLP), de Yasser Arafat, na sua carta de fundação, em 1964, dizia que seu objetivo era um Estado único, no qual viveriam cristãos, muçulmanos e apenas os judeus que estivessem no território antes de 1917 e seus descendentes - os demais deveriam ser "removidos". Ainda na mesma década, o OLP adotou outro projeto, que previa um Estado secular e democrático em todo o território que englobaria Israel, Cisjordânia e Faixa de Gaza. Neste caso, os judeus poderiam ficar, independentemente da época em que houvessem chegado. A tese também teve apoio do maior intelectual palestino, Edward Said (1935-2003).O defensor de direitos humanos palestino Sami Aldeeb afirma que o Estado binacional é melhor porque radicais dos dois lados ficariam satisfeitos, pois poderiam morar em qualquer parte do território. Além disso, no campo econômico, os israelenses necessitam de trabalhadores e os palestinos, de empregos. Ahmad Khalidi, professor do St Anthony''s College, em Oxford, escreveu que os dois lados manteriam o direito de retorno, colonos na Cisjordânia não precisariam ser removidos e Jerusalém seria a capital indivisível do país.O cientista político e ex-vice-prefeito de Jerusalém Menron Benvenisti e Yakov Rabkin, historiador da Universidade de Montreal , desenvolveram um plano no qual o Estado seria nos moldes da Suíça, dividido em cantões. Alguns seriam judaicos mais seculares, outros conservadores. Drusos teriam as suas áreas, assim como cristãos e muçulmanos. Cada cantão teria sua própria legislação e sua religião, sendo responsável até mesmo pela educação e segurança policial. A política externa, defesa nacional e a economia ficariam sob controle da confederação. O dilema para os israelenses, segundo o historiador Avi Shlaim, é que muitos querem ser uma democracia, de maioria judaica e em todo o território. "É impossível ser as três coisas ao mesmo tempo", disse. Um Estado binacional, se fosse democrático, eliminaria o caráter judaico de Israel, já que em algumas décadas os palestinos seriam majoritários.O professor da Universidade de Nova York Tony Judt vai mais longe e adverte que, em uma década, Israel não será mais judaico e tampouco democrático, se incorporar todo o território. Sua posição é compartilhada pelo historiador palestino Rashid Khalidi, da Universidade Columbia. O professor israelense Efraim Karsh, do King''s College, afirma que os árabes nunca enxergaram um Estado binacional como uma parceria verdadeira. O Estado único, segundo ele, é um eufemismo para a destruição de Israel por meio de uma bomba demográfica que certamente seria formada pela maioria árabe.

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