Kadafi usa bomba proibida contra civis

Banida por 108 países, arma que libera centenas de pequenos explosivos, atingindo indiscriminadamente amplas regiões, está sendo empregada por Trípoli contra rebeldes na cidade de Misrata; ataques ampliam pressão sobre Otan

The New York Times, O Estado de S.Paulo

16 de abril de 2011 | 00h00

Forças do ditador líbio, Muamar Kadafi, vêm usando armamento pesado - incluindo as altamente letais bombas de cacho, banidas por 108 países - contra bairros residenciais da cidade de Misrata, reduto rebelde sitiado há sete semanas. A revelação foi feita ontem pelo New York Times, que teve acesso a pedaços de bombas de fragmentação usadas pelo regime contra alvos civis. Testemunhas também relataram os ataques com o armamento.

As bombas de cacho são lançadas por aviões ou foguetes, liberando ainda no ar dezenas ou centenas de minibombas. Os explosivos podem atingir, de forma indiscriminada, uma região equivalente a até quatro campos de futebol. Para piorar, as minibombas que não explodem no ar se tornam uma espécie de mina terrestre, estendendo por décadas o risco aos civis.

O New York Times conseguiu um fragmento desse armamento lançado, que teria sido fabricado pela Espanha em 2007, um ano antes de o país europeu assinar o tratado que bane as bombas de cacho. O governo de Madri não se pronunciou até agora.

As provas de que Kadafi deliberadamente está adotando alvos civis coloca ainda mais pressão sobre a Otan, cuja missão inicial era proteger "a população" líbia do ditador. Depois de passar o comando à aliança atlântica e retirar-se parcialmente da ofensiva, os EUA também podem se ver cada vez mais pressionados a ampliar seu envolvimento na guerra.

Questionada sobre o uso de bombas de cacho por Kadafi, a secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, disse que "não tinha informações" a respeito dos ataques. "Mas não me surpreenderia com nada que o coronel Kadafi e suas forças tivessem feito", completou ela em uma reunião com chanceleres em Berlim.

Durante a noite de quinta-feira, moradores de Misrata podiam ver as bombas de cacho cruzarem os céus da cidade, liberando projéteis luminosos aparentemente de 120 milímetros. Cada um levaria 21 submunições.

A ONG Human Rights Watch também denunciou ontem o uso do armamento de fragmentação por forças leais a Trípoli e pediu a Kadafi que suspenda esse tipo de ataque.

"É inconcebível que a Líbia esteja usando esse armamento com poder indiscriminado, especialmente se empregado em áreas civis populosas", disse Steve Goose, diretor da ONG. "Bombas de cacho são armas imprecisas que, por sua natureza, impõem riscos inaceitáveis a civis."

Além do armamento de fragmentação, foguetes Grad, originalmente fabricados na Rússia, também foram disparados contra alvos civis de Misrata, incluindo uma mesquita. Um desses projéteis teria matado oito civis, segundo sobreviventes e testemunhas.

Misrata é a única cidade do oeste da Líbia em poder das forças anti-Kadafi.

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